Capítulo 06.
Uma praça próxima ao shopping - 16h45min
As últimas três semanas tinham passado incrivelmente rápido, já que eu sempre tinha algo para fazer. Quanto à mentira, o diretor parecia ter acreditado no pseudo-beijo e comprado a ideia de que e eu éramos um casal. A parte ruim era que, sempre que ele passava por perto, eu tinha que me aproximar mais de ou fazer algo carinhoso. Como eu havia previsto, a fofoca se espalhou rápido e eu não duvido que tenha sido a própria secretária do diretor que contou sobre o suposto novo romance. Todos pareciam não acreditar na encenação, o que só me dava uma dor de cabeça ainda maior, já que sempre que percebia alguém nos encarando muito fixamente precisava me aproximar mais ainda dele. Com relação aos beijos-nada-técnicos não houve nenhuma mudança. e eu não nos beijamos nenhuma vez após aquela ocasião de emergência com o diretor, e eu não estava disposta a mudar a atual situação; quanto mais distante de , melhor. A confusão que me perseguia desde o dia em que nos abraçamos - criando sem querer esse teatrinho idiota - estava se tornando cada vez mais incômoda e eu simplesmente me recusava a pensar sobre o assunto.
O jantar que era para ter acontecido naquela sexta-feira na verdade não ocorreu, pois consegui inventar uma doença qualquer no dia, obrigando minha mãe a desmarcá-lo e, nos dias seguintes, sempre que ela sugeria algo do tipo eu simplesmente falava sobre uma prova ou trabalho. Um dia ela chegou em casa quando estava indo embora de nossa tarde de estudos – que rendeu bastante, já que ele tinha tirado B+ na nossa mais recente prova, duas semanas atrás -, e ficou olhando-o com uma cara estranha; depois que ele foi embora, encheu-me de perguntas sobre o porquê o amigo de estava lá em casa se o mesmo tinha saído e eu acabei “confessando“ que era meu novo namorado. Ela pareceu acreditar e, vez ou outra, ainda me pergunta coisas sobre ele – das quais eu invento respostas, obviamente -, mas depois passei a tomar cuidado e fazê-lo ir embora antes de ela chegar. Se bem que eu acho que isso não vai mais acontecer.
O filme estava quase na metade, mas eu estava querendo muito uma pipoca. Olhei para os lados e todos estavam vidrados na tela do cinema, parecendo alheios à minha presença. Apenas levantei e fui em direção à saída. Chegando lá fora vi que a fila não estava muito grande, tinha apenas um homem em minha frente e... Era . Não percebi que ele tinha saído da sala. Fingi não perceber sua presença e esperei que ele fosse embora para eu poder comprar minha pipoca em paz. Enganei-me.
- Já ficou com saudades de mim? – provocou, em seu tom irritante de sempre, parando ao meu lado enquanto eu pedia minha pipoca. Apenas revirei os olhos, entregando o dinheiro ao caixa. O mesmo me entregou uma notinha e eu segui um pouco para o lado para pegar meu pedido. continuava grudado em mim.
- Por que você fica me seguindo? – exclamei, irritada. Estava passando tempo demais com ele por culpa da historinha de namorados somado às aulas de biologia, portanto qualquer tempo extra ao seu lado já me causava irritação.
- Credo, garota. Eu só queria um pouco de pipoca. Ficou paranoica que nem a Jodie agora?
Imediatamente reconheci de quem ele estava falando. Não de Jodie Fox, a animadora de torcida que muda a cor do cabelo uma vez por semana, mas sim de Jodie Gunther, uma garota lá da escola que era da nossa turma; não é mais, pois as notas dela estavam tão, mas tão baixas que o diretor resolveu mudar ela de turno, já que durante a tarde tinham menos alunos e seria mais fácil “controlá-la”. O mais engraçado é que ela não costumava ser assim, mudou quando conheceu o namorado, Gary, que é o típico estilo Eric Lyon, popular e desejado pela metade “feminina” da escola (ênfase no “feminina”, por favor, pois quando me refiro à metade “feminina”, me refiro àquelas que vão ao banheiro na hora do intervalo apenas para conferir se a bunda está arrebitada o suficiente – acredite em mim, elas existem e não são poucas). Grande parte da população escolar não entende o motivo de Gary e Jodie namorarem, mas eu entendo. Ela é uma garota legal e divertida, o único problema dela é o ciúme excessivo. Claro que Gary não tinha como saber disso quando começou a namorá-la. Jodie simplesmente se transformou; começou a controlar cada passo dele e a dar chiliques cada vez que uma garota chegava perto. Era doentio. Tentei avisá-la uma vez, já que éramos um pouco amigas, mas ela não aceitou meu ponto de vista e brigamos, desde então não tenho mais notícias dela. O controle sobre o namorado era tão grande que ela não tinha tempo de se dedicar aos estudos mais, por isso as notas caíram tanto. Ganhou o apelido de Paranoica e, sinceramente, tinha fundamento.
- É impressionante como você precisa falar mal de alguém, não é mesmo? – ri, irônica e revirei os olhos mais uma vez. A criatura à minha frente estava acabando com a minha paciência.
- Ih, pronto. A defensora dos pobres desafortunados arrumou mais uma queridinha. – agora foi a vez de ele abusar da ironia. – A lista já está muito grande, . Melhor você começar a maneirar.
- Defendo quem eu quiser, fique na sua. – o atendente me entregou a pipoca e eu a peguei, virando de frente para .
- Que drama, só fiz um comentário. Precisa dessa violência toda? Não é a toa que o Lyon te largou. – não tinha como saber, mas tinha tocado em meu ponto fraco. Ele sabia sobre o Eric porque tinha contado (brigamos quando descobri que ele havia aberto o bico para o – na época – novo amigo, mas acabei o perdoando já que pretendia esquecer a existência do ser), mas nunca achei que a informação faria diferença. Quando saí da casa do Eric naquele dia, lembrei que no dia seguinte ele iria à minha casa (era sábado e em todos os sábados fazíamos algo juntos), coloquei então meu melhor sorriso e o recebi. Tentei fingir que nada tinha acontecido, mas então minha mãe fez o favor de entrar em meu quarto e comunicar que iríamos mudar de cidade à noite daquele mesmo dia; ele me olhou, incrédulo, e começamos a discutir. Culpava-me por ser indiferente ao nosso relacionamento, e então eu não aguentei mais e contei a ele que tinha ouvido a conversa do dia anterior. Não demonstrando reação, ele apenas respirou fundo e foi embora. só partiu no dia seguinte (ele tinha algo para fazer na cidade antes de ir) e me contou que Eric tinha espalhado para todo mundo que ele que tinha me largado porque eu era uma pedra sem sentimentos. Claro, o orgulho era maior do que qualquer outra coisa. me pressionou, mas não quis contar a ele a verdade. Sentia-me usada e, na época, ainda não éramos tão amigos, por isso ele não insistiu; Acabou aceitando a versão de Lyon. Não me surpreende que também tenha aceitado-a. Porém tocar nesse ponto é retornar a um passado que eu jurei esquecer, lembrar uma época em que eu achava que tudo era perfeito, lembrar a primeira vez em que fui magoada. Não é uma lembrança que eu aprecie.
- Pode ficar com a pipoca. Espero que morra engasgado. – atirei o pacote em sua direção e saí de lá a passos largos, andando sem rumo até chegar a uma praça, onde me apoiei em uma árvore e fiquei apenas parada, fitando a rua movimentada.
- Ei. – levei um susto e olhei para o lado, dando de cara com . Revirei os olhos e descruzei os braços, me virando para ir embora, contudo ele me segurou pelo pulso, me obrigando a parar. - Queria te pedir desculpas, não achei que você ainda se importava tanto com o Lyon. – falava sem me olhar nos olhos, mas aquilo já era muito além do que eu esperava dele. Um pedido de desculpas? Confesso que estou surpresa.
- Não me importo, é só que... Deixe pra lá. – dei de ombros, afastando minha mão da sua. – Está desculpado. – dei um meio sorriso, sem querer estender demais aquele assunto. Quanto mais rápido for esquecido, melhor. também sorriu.
- Então... Já que eu estou desculpado, a gente podia ir estudar biologia né? – disse e minha expressão se tornou incrédula. Era óbvio. nunca pedia desculpas, eu devia ter adivinhado.
- Impressionante como tem que ter interesse no meio né? Poupe-me. – saí andando sem olhar para trás e segui para casa a pé mesmo. Eu estava bufando de raiva. Mais uma vez, se provou mais idiota do que o esperado. Ele sempre se surpreende, incrível.
Casa dos – 19h30min
“- Você tinha a mim!
- Eu a perdi assim que fui embora com ele.”
- Olá, querida pri... Você está chorando? – entrou, me dando um susto. Eu estava na sala assistindo The Vampire Diaries, e percebi naquele instante que tinha lágrimas nos olhos. Comecei a rir e pareceu achar a cena bizarra. Limpei as lágrimas, apontando para a televisão e ele revirou os olhos. – Porque você sumiu do nada, posso saber? O filme estava só na metade.
- Tive uma discussão com o .
- Eu sei.
- Então por que raios você está perguntando? – virei subitamente para ele, que deu de ombros.
- Você sabe que vai ter que se entender com ele, não sabe? A última prova é daqui três dias, no caso sexta, e no sábado a gente viaja para LA! – piscou para mim e eu ri.
- Estou sabendo. Mas ele foi bem na última prova, não precisa de mim pra estudar pra essa.
- Jura? – me encarou, arqueando as sobrancelhas. O pior é que eu sabia que ele estava certo. Eu tinha deixado conteúdos pendentes com e, se eu quisesse mesmo ir para Los Angeles, teria que terminar de ensinar a ele a matéria. Merda. – Se eu fosse você passava na casa dele depois da aula amanhã.
- Vou pensar. – foi tudo que eu respondi. Dei um beijo na bochecha do meu primo e subi, ligando o notebook.
De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Sumiço
Você quer me matar do coração? Que história é essa de sair pra comprar pipoca (segundo o ) e simplesmente não voltar mais? Quase tenho um troço! Que raios aconteceu? disse para eu não me preocupar porque era culpa do , mas quero ouvir de você. O que houve?
PS: Seu primo falou que eu estava linda hoje. Todo mundo resolveu surtar ou é impressão?
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De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [whatthehell@hotmail.com]
Assunto: RES: Sumiço
[ironia] Oi, querida. Que surpresa! Eu vou bem, e você? [/ironia]
Dá pra acreditar que o idiota do fez uma piadinha de mau gosto sobre o Eric? Ele simplesmente olhou pra minha cara e falou “Não é a toa que o Lyon te largou”. Puta merda, . JURO pra você que um dia eu esgano esse garoto. Eu simplesmente fiquei com raiva e dei o fora dali, não aguentava mais olhar para aquela cara de uva podre. Argh! Estou pensando seriamente em ignorá-lo daqui pra frente.
PS: Qual a surpresa? Você nasceu linda, little star. Pensei que fosse gostar do elogio.
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De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Criatividade
Cara de uva podre? Será que eu posso saber de que tipo de buraco você tira esses apelidos?
Ele fez piada sobre o seu término com o Eric Lyon? Esse garoto realmente não tem medo da morte. Ah, não tem mesmo. Tenho a leve sensação de que ele já esqueceu o que você fez com a tal líder de torcida. Ainda não entendo como você teve coragem de desperdiçar tanto Milk-shake.
Amanhã conversamos melhor sobre a parte de ignorar, ok?
Boa noite.
PS: Eu gostei do elogio, só achei estranho ele vir justo do seu primo.
Depois de ler a resposta, arrumei minha bolsa e me atirei na cama, estava muito cansada. Apaguei instantaneamente.
Quarta-feira – 12h58min
Caminhava calmamente pelas ruas de Londres, indo em direção à minha amada casa. tinha um compromisso em algum lugar (se não me engano, consulta no médico. Algo de rotina) e não pode me dar carona. O caminho não era exatamente breve, mas não era algo que me mataria de dor. Pelos meus cálculos devo estar agora na metade do caminho, mais dez minutos e chego em casa.
- Quer uma carona? – ouço alguém dizer perto de mim e, quando me viro, vejo e seu presunçoso sorriso, somado ao carro e os óculos escuros. Se eu fosse uma das garotinhas fúteis do colégio, estaria babando agora. Como não sou, apenas reviro os olhos e continuo andando. – Qual é, , vai continuar me ignorando até quando? Você sabe que as pessoas estão começando a notar que não nos falamos hoje.
- Do que você me chamou? – pergunto apenas, sem diminuir o ritmo. Percebo que o automóvel me acompanha.
- , não é esse seu apelido?
- É, mas apelido é algo para ser usado por pessoas próximas.
- Outch. Perdão, senhorita . – exclamou, num tom grave e eu não consegui conter uma pequena risada. – Vamos, entre aí, lhe dou uma carona. Estava realmente começando a ficar frio, por isso acabei entrando no carro. Exalei o perfume presente lá e me segurei para não suspirar. Menta. Eu adorava menta, sentia-me em casa. Costumava perfumar meu quarto com esse aroma quando minha avó vinha me visitar, ela adorava; Consequentemente, eu também passei a gostar.
Quando acordei de meus devaneios, percebi que seguíamos por um caminho estranho.
- Ei, onde estamos indo?
- Minha casa.
- ! – exclamei, surpresa.
- Relaxe, hoje você é minha convidada. Já avisei sua mãe. – deu um sorriso torto, como se rindo de uma piada interna. Não queria nem imaginar o que minha mãe tinha dito a ele, só esperava que eu ainda tivesse uma casa; conhecendo a peça, já era capaz de eu estar prometida em casamento. Ok, não é para tanto.
Parecia estranho eu não conhecer sua casa, considerando que é o melhor amigo do meu primo e tudo mais, porém eu realmente nunca havia estado lá. Era uma casa grande e visivelmente recém-reformada; o tom claro do amarelo destacava-se e as portas e janelas chegavam a brilhar. estacionou bem na frente e entramos, sendo recebidos por uma governanta de sotaque estranho (depois fui descobrir que ela era brasileira), que nos conduziu à mesa. Fiquei com água na boca ao sentir o cheiro de lasanha que exalava da cozinha. Uma garotinha de cabelos escuros passou correndo por nós e subiu as escadas. pegou minha bolsa e deixou-a no sofá, fazendo sinal para a escada. Subimos e ele parou em frente a uma porta rosa, abrindo-a. A garotinha tinha em mãos duas bonecas e penteava seus cabelos. deu duas batidinhas na porta e a pequena nos olhou, sorrindo. Parecia ter uns onze anos.
- Lucy, essa é minha amiga . , essa é minha irmã Lucy.
- Olá, Lucy. – sorri, acenando para ela, que levantou e veio em minha direção. Abaixei-me e ganhei um abraço.
- Você é bonita. – disse, tocando minha bochecha.
- Obrigada, princesa. – ri, sem jeito. Não reagia muito bem a elogios.
- O almoço está pronto, vamos? – ouvi dizer e levantei. Lucy segurou minha mão.
- Vamos, . Você senta perto de mim. – puxou-me e seguimos para a mesa.
Durante o almoço, a garota me contou sobre seu dia na escola, sobre suas amigas e o que gostava de fazer. Arrisco dizer que a garota foi a amiga que conquistei mais rápido. Ela era um amor; nunca me falara que tinha uma irmãzinha.
15h05min
Eu brincava com Lucy enquanto lia uma revista. A tal governanta então chegou dizendo que era a hora de ela fazer a lição de casa. Aproveitei a deixa e sugeri a que fossemos estudar biologia. Ele pareceu surpreso com a sugestão, mas não discutiu.
Procurei estudar com ele todo o conteúdo que faltava para deixar o dia seguinte apenas para revisão. estava pegando o jeito e era cada vez mais fácil ensiná-lo. Das duas, uma: ou eu era uma ótima professora ou ele era secretamente um gênio. Eu apostava na primeira opção.
Quando (finalmente!) terminamos, passou na casa de para me buscar. Lucy pediu para eu voltar no dia seguinte, e acabei mudando a aula de lugar; em vez de ser em minha casa, seria na de . Eu não conseguiria dizer não à fofa garota.
Quinta-feira – Casa dos – 14h30min
Quem abriu a porta para mim foi a governanta e, quando entrei, percebi que dormia no sofá. Revirei os olhos e decidi falar com sua irmã antes de acordá-lo, já que foi ela o principal motivo de eu ter vindo hoje.
- Lucy? – chamei, olhando para a escada. A garota desceu correndo e pulou em meus braços; percebi que ela soluçava. Firmei-a em meu colo e fui em direção ao sofá (não o que estava, o outro), sentando e colocando-a em cima de minhas pernas. Ela enterrou o rosto em meu pescoço e continuou chorando. – Ei, o que houve? – perguntei suavemente, afagando seu cabelo. Esperei até que os soluços diminuíssem e tirei-a delicadamente do abraço, olhando seu rosto vermelho. Com o dedo, limpei algumas lágrimas que pendiam em sua bochecha. Quando começou a falar, ainda soluçou vez ou outra, porém consegui compreender o que dizia.
- Umas meninas da minha sala me chamaram de chata hoje na escola. – disse. – Eu sou chata, ?
- Claro que não, princesa. Você é a garota mais legal que eu conheço. – sorri, e ela beijou minha bochecha. – Essas meninas são más e não sabem o que dizem, não ligue para elas.
- Mas o Grabel riu também. – encarou o chão e eu subitamente entendi. O tal Grabel era o garoto de quem Lucy gostava.
- Você já gostou de alguém, ? – perguntou, como quem não quer nada.
- Já, sim.
- Conta pra mim? – pediu, piscando os olhos e eu não pude recusar. Já me encontrava hipnotizada pela menina.
- Quando eu tinha mais ou menos nove anos, fui passar as férias em um lugar lindo. Fiquei um mês lá com a minha mãe e umas amigas dela. Conheci um menino da minha idade e passamos a brincar todos os dias. Foi meu melhor amigo durante aquele mês e eu acabei... Gostando dele. Ele era mais ou menos do seu tamanho, tinha os olhos da cor dos seus. Quando fui embora, ele me deu uma flor e me fez prometer nunca esquecê-lo. Eu ainda tenho essa flor, sabia? – terminei e a menina me olhava, encantada. Era verdade, eu ainda tinha a flor guardada. Aquele menino foi o meu primeiro amor e eu nunca irei esquecê-lo.
Um barulho me assustou e percebi que não só tinha acordado, como acabara de subir as escadas na maior das velocidades. Voltou com um papel em mãos e, por sua expressão, achei melhor logo olhar o que era. Era uma foto, daquela mesma viagem. Eu sorria ao lado de meu primeiro amor, com a flor que ele me entregara em mãos, àquela época ainda vibrante. Ele também sorria e tinha a mão apoiada em minha cintura. Uma fotografia adorável. Foi então que um estalo me atingiu e eu deixei o papel cair.
O menino da foto era
Capítulo 07.
Sábado – Aeroporto – 10h
- Acho que deveríamos ir sem ele. – resmungo, impaciente, deixando meu corpo cair sobre uma cadeira qualquer, nada confortável, próxima ao local onde todos se reuniam num torto círculo.
- Não podemos partir sem ele e você sabe disso, . – é quem responde, revirando os olhos e eu mostro o dedo do meio para ele, causando algumas risadas. Já estamos há meia hora no aeroporto, falta esse mesmo tempo para que nosso voo parta daqui e adivinhe? Nem sinal de . Eu não o via desde aquele dia em sua casa, quinta-feira. O choque que se apossou de mim ao descobrir que justo ele tinha sido meu amor de infância fora tão, mas tão grande que não tive outra reação a não ser sair correndo dali. Depois de uma noite inteira sem pregar o olho, não foi preciso fingir uma dor de cabeça; a que eu realmente sentia já foi suficiente para convencer minha mãe e da minha necessidade de faltar à aula. A prova de biologia perdida não seria problema para mim, tinha tirado nota máxima nas anteriores. Meu primo resolveu não perguntar o que aconteceu para eu ficar de tal forma, mas estava escrito em seus olhos que ele percebera meu estado de choque; e eu rezava para que não tivesse aberto o bico. A viagem começava a me assustar, realmente ficar “sozinha” com ele não estava nos meus planos, ainda mais depois de descobrir tal coisa. Quem diria? Logo ele. Quais eram as chances disto acontecer? Uma em um milhão? Com essa “sorte”, se eu tivesse ganhado na loteria seria mais útil. Mas, não, eu tenho que reencontrar meu amor de infância. São incontáveis o número de noites nas quais já sonhei, mesmo que por poucos segundos, reencontrar o menininho que me tratou de forma tão doce; eu sonhava com o que ele estava fazendo, com qual seria sua aparência, se ele ainda pensava em mim. No que se refere à aparência, não posso negar que superou minhas expectativas, mas nunca o imaginei tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe. é um perfeito idiota e não acredito realmente que ele seja capaz de sentir algo por alguém, ainda mais por uma garota como eu, que não dá a mínima para roupinhas de marca e manicure. E ficaria por isto mesmo. Eu estava decidida a ignorá-lo e não tocar mais no assunto “infância”. Quanto à minha quedinha por ele... Bem, eu iria superar. Confesso que tinha me feito sentir algo diferente quando descobri quem ele era, mas não iria deixar tal informação anular completamente tudo o que eu já sabia sobre ele. era um galinha, não era?
- Olha só quem resolveu aparecer! – ouço a voz irônica de e não me movo, já sabendo do que se trata.
- Meu alarme não tocou. – diz, com a voz mais rouca que o normal, denunciando um cansaço monstruoso. Parece que não fui a única que dormi mal.
- Agora que os dois pombinhos estão aqui, temos um comunicado. – quem se manifesta é e entra em meu campo de visão. Ele usa uma roupa casual, com o destaque para os óculos escuros, que eu apostava serem para esconder as olheiras. Tenho medo do que vou ouvir e mantenho meu olhar cravado em meu primo, que sorri. – O teatrinho continuará, acho importante lhes dizer.
- Como é que é? – murmuro, pasma. Achei que pelo menos nesta viagem me veria longe do romance fingido.
- Culpa de vocês. – dá de ombros. – O diretor acreditou tanto no romancezinho dos dois que disse para nós que iria acompanhar o show pela internet e disse também que ouviu certas pessoas comentando sobre uma surpresa que o senhor faria no show para a amada namorada. – antes de ele completar a frase, já estou de pé, fuzilando com o olhar.
- Que merda você andou espalhando por aí dessa vez? – estou desafiadoramente a sua frente, porém ele não demonstra nenhuma reação. Permanece em silêncio, um silêncio gritante que contrasta com a barulheira antes presente. Agora parece que não escuto mais nada. Os olhos de me encaram profundamente e ele não pronuncia uma só palavra. Tornando-me novamente ciente da presença ao meu redor, retomo a postura defensiva. – O gato comeu sua língua?
- A minha não, mas pelo jeito ele andou comendo a sua. – sua voz é fria, áspera e percebo a que ele se refere. – Está com medo de falar comigo? Ou é medo do que eu posso te dizer? – ergue as sobrancelhas numa expressão acusadora e eu me seguro para não abaixar a cabeça. Ele está certo, é óbvio que está. Mas não darei o braço a torcer.
- Não sei do que você está falando. – é tudo que digo, e dou as costas para ele, seguindo em direção ao portão de embarque bem na hora em que chamam nosso voo.
Um tempo depois, chegamos a Milão para fazer uma escala. Temos uma hora até que saia nosso voo para Los Angeles e eu começava a me sentir desconfortável com o olhar de cada vez mais forte sobre mim. Por fim, acabo levantando para ir até uma livraria ver se acho algo que me distraia. Parte de mim quer acreditar que não, mas sei quem irá me seguir até lá. Tenho absoluta certeza.
- Não vou te deixar ir embora. – sussurra perto de meu ouvido e meu corpo inteiro estremece. Lembranças invadem minha mente no mesmo momento e eu faço esforço para continuar em pé.
Narração em terceira pessoa
- Não vou te deixar ir embora, pai. PAI! – a menininha berra, aos prantos, enquanto observa o pai ir embora cheio de malas e com uma expressão furiosa no rosto. Ele decidira se separar e simplesmente foi embora, ignorando os gritos da filha e os protestos da mulher. Outro espectador da cena era o pequeno , que também tinha lágrimas nos olhos e assistia com o coração apertado o sofrimento da pequena . Ele não entendia o que estava acontecendo ou o motivo da gritaria, só sabia que a pequena estava chorando e isso doía nele também.
Quando a porta do carro foi fechada, a menina caiu no chão, de joelhos, enterrando o rosto entre as mãos. Seu pequenino corpo tremia, ela não acreditava que o pai estava indo embora. A mãe da garota também estava tremendo, porém de raiva. Quem aquele homem pensava que era para abandoná-la? Entrou correndo na casa onde estavam passando as férias e começou a arrumar as malas, decidida a ir embora. Estava farta daquele lugar.
foi correndo até a melhor amiga, abraçando-a sem saber o que dizer. Como ele diria algo, se nem sabia o que se passava? A menina abraçou-o e permaneceram assim até que o choro cessasse. A mãe da menina apareceu e disse que iriam embora, ela apenas balançou a cabeça, olhando para o novo amigo. Ele a puxou até uma árvore e já tinha os olhos marejados.
- Prometa que não vai me esquecer.
- Eu prometo, .
- Eu... – ele suspira, sem saber o que dizer. Nunca se despediu de ninguém antes, ainda mais alguém tão importante. – Vou te dar dois presentes para você não se esquecer de mim... Um. – disse, se aproximando da garota e grudando seus lábios rapidamente. O primeiro beijo de ambos. – E... Dois. – pegou uma rosa caída ali perto, e estendeu para a garota. – Quando você for uma super-princesa de verdade, use seus poderes pra me encontrar de novo. – disse, e os dois riram em meio às lágrimas.
Quando se conheceram, usava um vestido rosa e uma roupa de super-homem. Ela ficava dizendo que era uma princesa, mas ele queria brincar de super-herói; entraram então em consenso: ela seria uma super-princesa. Problema resolvido. Fizeram essa mesma brincadeira durante o mês inteiro.
- Vamos tirar uma foto! – a mãe do menino apareceu, e eles se abraçaram de mal jeito, mirando a câmera.
Fim da narração em terceira pessoa
Estou prestes a desabar, por isso não resisto quando ele vira meu corpo em sua direção, envolvendo-me num abraço forte e carinhoso, que eu nunca imaginaria receber do melhor amigo do meu primo. Mas aquele ali não era o melhor amigo do meu primo... Era o meu. A cada dia meus sentimentos sobre mudam mais, no começo do ano eu praticamente não o suportava e agora permito que me abrace; cômico, se não trágico.
- Voo 1113, com destino a Los Angeles, embarque imediato pelo portão de número 5. – uma voz robótica fala por todo o aeroporto, e me solto do abraço, evitando o olhar do rapaz a minha frente. Parte de mim tem medo do que pode encontrar por lá. No olhar de sempre vi algo casual, mas no de ... Eu não iria descobrir tão cedo.
Saio de lá praticamente correndo e seco as lágrimas antes de me juntar aos outros. abre a boca para perguntar algo, mas o silencio com o olhar. Sentarei ao lado dele no avião e contarei tudo. Estou me sentindo mal por esconder coisas daquele em que eu confio tanto.
me encara, pasmo. Ele parece extremamente surpreso com o que acabei de contar, e claramente não sabe o que dizer. Eu também não o ajudo, apenas viro a cabeça para o lado e passo a mirar o céu. Quando torno a olhar novamente para o lado, quem está me encarando não é mais , e sim .
- Ei. – ele diz, com a voz suave.
- Ei. – repito, dando um sorriso torto. Nunca me senti tão desconfortável ao lado de uma pessoa como eu me sinto no momento. É desesperador.
- Por que a super-princesa não usa seus super poderes pra me contar o que se passa dentro da cabeça dela? – diz, cutucando de leve meu ombro com o próprio.
- Talvez porque nem ela mesma saiba o que pensar. – a resposta flui por meus lábios antes que eu tenha tempo de pensar sobre ela.
- Ajuda se eu disser que também não sei?
- Ajudar não ajuda, mas obrigada pela informação. – sorrio sincera e escuto-o rir baixinho.
- A professora de biologia me ligou ontem...
- Até a professora, ? Olhe, olhe... – brinco e gargalhamos. Sinto a tensão que nos rondava se dissipar completamente, dando lugar a uma sensação de familiaridade que me conforta. Agora posso sentir que somos realmente amigos e me sinto bem com isso.
- Engraçadinha. – ele diz, irônico. – Ela ligou para me parabenizar pelo resultado da prova.
- Jura? Parabéns! – sorrio largamente e, sem pensar, dou um abraço torto em , que parece surpreso e devolve o abraço desajeitadamente. Permanecemos um tempo assim até que o solto devagar e cometo o erro de olhar em seus olhos. Percebo que encara meus lábios e começa a se aproximar, porém o afasto e viro o rosto para o lado. Ele não ia me beijar, ia?
- E... Em homenagem à minha incrível professora que tornou isto possível... – começa, em tom de suspense e mexe na mochila por alguns segundos, até que tira de lá um pacote de presente, que me entrega. Abro curiosa, e tiro de lá uma camisa dos Beatles, parecida com a que eu tinha. – Falei que te daria uma nova, não falei?
Quando chegamos ao hotel, vou direto para o meu quarto, me jogando na cama. A viagem foi no mínimo estranha. estava sendo gentil e atencioso comigo, o que era extremamente bizarro, considerando que até tempos atrás apenas nos suportávamos. Tinha algo muito estranho acontecendo entre nós dois e eu não fazia ideia do que era; mas sei que esse acordo sobre fingirmos ser namorados tinha mexido comigo, pois tinha me permitido enxergar um que eu não fazia ideia que existia. Para afastar quaisquer pensamentos que possam me confundir ainda mais, abro o notebook para checar meus e-mails. Tem um de .
De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: : [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: : Amizade
Você por acaso conhece o conceito dessa palavra? “Aquele que é amigo, companheiro, camarada”, aquele que CONTA quando está fodidamente apaixonado por . Magoou meus sentimentos, sabia? Até seu primo tinha conhecimento do fato e a sua melhor amiga aqui nada. Pra que contar, não é mesmo? Essa é esperta demais, daqui a pouco ela descobre, não precisa contar. E se você vier com desculpas de que não contou por culpa da viagem eu vou aí colar um chiclete no seu cabelo. Acho que você lembra bem do que aconteceu na última vez que fiz isso. Existe uma coisinha chamada celular, já ouviu falar? É bem útil de vez em quando.
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De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [whatthehell@hotmail.com]
Assunto: RES: Amizade
Você conhece o conceito dessa palavra? Pelo jeito não. Desde quando você troca segredinhos com meu primo, posso saber? Pra que contar, não é mesmo? Essa é esperta demais, daqui a pouco descobre...
E sobre o , não tenho nada a declarar. Não sei do que você está falando. Ele foi meu casinho de infância, mas foi só. Nada de mais.
Mas você, mocinha, tem sérias explicações para dar. Pode começar.
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De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Não mude o foco da conversa
Você sabe que odeio quando faz isso. Sim, eu e andamos conversando bastante ultimamente, e daí? Grande coisa. Até parece que vou casar com ele ou algo do tipo, por favor, né. Agora vamos voltar ao que interessa: Você e o senhor bonitão. Nada de mais? Nada de mais, , tem certeza? Estou bastante ciente do abraço no aeroporto e do presentinho que ele te deu. Nem venha para cima de mim com mentiras que não rola. Você está apaixonada por ele, mas se recusa a admitir.
Diga-me uma coisa: vocês já se beijaram? Tipo, beijo mesmo, sem ser o teatrinho idiota pra enganar o diretor. Aliás, fiquei sabendo também do beijo que você deu nele no corredor... Acho que vamos precisar de uma aula sobre “conceitos da amizade”, você parece ter esquecido completamente quais são.
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De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para:
[whatthehell@hotmail.com]
Assunto: (Sem assunto) Eu não estou apaixonada por , ok? E quando ao resto do e-mail, vou simplesmente fingir que não li.
.
De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: (Sem assunto)
Você que sabe... Só não diga que não lhe avisei. Agora vou indo, tenho um jantar com a família.
. Fecho o computador com força, fechando os olhos e respirando fundo. está delirando, claro que está. É humanamente impossível que eu sinta algo por ... Não é?
Claro que é!
Ou não?
Capítulo 08.
- Pronta, ? – escutei a voz de , seguida por duas batidinhas na porta e murmurei um “sim”. Já estava quase na hora de o McFly ir passar o som e eu me arrumava para o show. Coloquei um vestido preto básico, um cinto com tachinhas e um sapato de salto vermelho. Fora o que achei de mais básico no meio das roupas que minha mãe tinha me dado. Coloquei as lentes de contato e brincos, e então estava pronta. Não tinha me olhado no espelho, mas não havia tempo para isso, apenas saí, achando o corredor vazio. Chamei o elevador e, quando a porta abriu, dei de cara com .
- Ei. – disse, sorrindo e apertando o botão do térreo. Percebi que ele não respondeu nada e desviei meu olhar para seu rosto, no intuito de descobrir o motivo. A expressão em sua face chegava a ser cômica; tinha os olhos arregalados e me olhava de cima a baixo sem parar.
- ? - perguntou, incrédulo e mantive minha expressão inalterada, sem entender o motivo da surpresa do garoto.
- Algum problema? – devolvi a pergunta, num tom indeciso. As portas do elevador se abrem e sai sem me dar uma resposta. O sigo, e chegamos a uma limusine. Ele abre a porta para mim e eu entro, sentando ao lado de e na frente de . – Oi gente, desculpe o atraso. – falei, dando um meio sorriso e um silêncio completo se instalou; o único barulho ouvido fora o da porta que fechou ao adentrar o veículo. Todos estavam me encarando, e suas expressões revelaram-se, mesmo que minimamente, similares a de no elevador e, novamente, não compreendo bulhufas.
- Caramba, , você está muito gostosa. – ouvi a voz de , seguida de um tapa, proveniente de e eu logo compreendo o espanto de todos. O vestido, é claro. Tinha me esquecido do detalhe de que passei 90% do tempo até agora usando somente calças. Levando em consideração que os 10% se referem ao tempo que passei em casa ou saindo com a minha mãe, não é de se surpreender que tenham ficado surpresos ao ver minhas pernas descobertas. Outro silêncio, desta vez constrangedor, instalou-se no local e senti que fosse minha obrigação quebrar tal desconforto. Ri, tentando disfarçar minhas bochechas levemente coradas e dei de ombros. Minha reação pareceu ser suficiente a todos ali, já que logo engataram em outro assunto; do qual vez ou outra participei com algum comentário, porém não estava de forma alguma envolvida naquela conversa. Minha real atenção se desviava de para a janela; para porque, bem, era impossível não olhá-lo, estava absurdamente lindo e parecia saído de Hollywood. Meus olhos inconscientemente pairavam sobre ele o tempo inteiro e, quando este encontrava meu olhar, eu desviava-o para a janela. Não queria pensar sobre isso, mas as palavras contidas no e-mail de pareciam dançar ao meu redor, enlouquecendo-me aos poucos.
A passagem de som foi relativamente tranquila e eu evitei o contato com ao máximo. Vez ou outra sentia seu olhar sobre mim, porém não mirava em sua direção, apenas fingia não notar. Depois de eles terem ido conhecer o Foo Fighters (a conversa foi boa, pelo que deu para deduzir da cara dos meninos quando retornaram), o show começou. O lugar, que antes parecia enorme, agora soava cômico, de tão pequeno que estava. Pessoas chegavam sem parar, cada vez lotando mais, até que eu (em pé no canto do palco, atrás da cortina) não enxergava mais o piso, tinha gente demais. E estavam extremamente animados, cantavam algumas músicas junto com o McFly e dançavam sem parar; era uma energia maravilhosa, até eu estava enérgica e dançando. Tentava me distrair, porém a todo momento minha mente retornava à seguinte informação: faria alguma surpresa para a amada namorada ainda nesse show. A “amada namorada” era eu, que teria que agir como a boboca apaixonada aos olhos de todos os presentes. Não fazia ideia de que surpresa era essa.
- Esta é a nossa última música. – ouço a voz de , e desvio meu rosto da plateia para o palco. Então me enganou e não terá surpresa nenhuma? Espero que sim. – E ela é um cover. – quando dizem isso, todos gritam animados. Uma faixa de luz deslocou-se da plateia, indo parar exatamente no rosto de , que sorriu, pegando o microfone.
- Esta música é dedicada à minha namorada, aqui presente. – ah, merda. Sou eu. Dou dois passos para frente, intimidada pelo olhar dos outros três em minha direção e a luz passa rapidamente por mim, causando alguns gritos, depois retornando a . – A escolhi, pois a banda nos traz boas lembranças, e sei que ela ama essa música. Essa é pra você. – ele termina, piscando para mim e eu mantenho o sorriso mecânico grudado em meu rosto até que os primeiros acordes de I Wanna Hold Your Hand, dos Beatles, começa e eu tomo a liberdade de sumir das vistas de todos e corro até o banheiro, fechando a porta e corando violentamente longe das vistas de qualquer um. Tenho a plena noção de que tudo aquilo foi pura encenação, porém não foi teatro nenhum o fato de ter acertado completamente na escolha da canção; era, sem dúvidas, a mais tocada de meu iPod. Pergunto-me como ele sabia disso.
Apesar de estar com a porta fechada, consigo ouvir a música tranquilamente, como se ainda estivesse ao lado do palco. Não sabia que os garotos tinham tamanho talento, a interpretação está impecável e única ao mesmo tempo.
Quando a canção termina, fico por alguns minutos no mesmo lugar, até que decido ir parabenizar os meninos pelo show maravilhoso. Sigo pelo corredor até uma porta de cor verde com o nome ‘McFly’ na porta. Entro sem bater, mas não falo nada. O camarim está lotado de garotas (que eu presumo que tenham pulado no palco e seguido até o camarim, tendo a plena noção de que a banda principal só começaria em cinco minutos) que se penduram aos montes nos quatro garotos. Observo a cena sem qualquer reação, porém quando pouso meus olhos em algo dentro de mim muda. Algo que não compreendo de imediato, mas que grita de raiva. Ele desvia o olhar das garotas e olha nos meus olhos por poucos segundos; poucos já que, quando faz isso, eu saio correndo dali, batendo a porta com força e retornando ao meu cantinho, encolhida no banheiro por mais uma vez.
Como se vindas do além, em poucos segundos meu olho está coberto por elas. Lágrimas. Muitas delas, que escorrem por meu rosto freneticamente e, por mais que as limpe, continuam retornando, cada vez mais fortes e em maior quantidade. Soluços ameaçam escapar por minha garganta, porém não permito. Estou ocupada demais descobrindo o motivo de tal cena patética.
Durante um mês inteiro me recusei a pensar sobre minha repentina proximidade com , e o que isto causava em mim. Recusei-me a dar razão a , que estava completamente certa. Recusei-me a perceber o efeito involuntário que a simples menção ao nome dele causava em meu corpo; recusei-me a pensar sobre as borboletas que passeavam dentro de mim quando o via, ou quando tínhamos que nos aproximar demais por culpa do “acordo”. Simplesmente recusei-me, e agora tal recusa me castigava, aparecendo com força total, revelando o que por semanas evitei admitir. Eu estava, sim, apaixonada por . Fodidamente apaixonada, como disse minha melhor amiga. E eu sabia que isto não poderia acontecer em hipótese alguma, eu não deveria me apaixonar por ; eu deveria odiá-lo! Odiá-lo por me obrigar a passar por esse teatrinho idiota, odiá-lo por não dar a mínima para ninguém e viver cercado daquelas líderes de torcida sem cérebro, odiá-lo por destruir a imagem que eu possuía de meu amor de infância, destruindo consequentemente quaisquer esperanças que eu ainda possuía no amor. Chego a sentir raiva de mim mesma por sentir qualquer coisa boa por ele. Lembro-me de quando brigávamos e eu realmente sentia raiva dele. Era tal sentimento que eu deveria ter por ele nesse momento. Raiva.
- Eu odeio você, . – falo, numa tentativa de convencer a mim mesma da fraca mentira.
- Obrigado pela parte que me toca. – escuto uma voz rouca vinda do outro lado da porta e dou um pulo, assustada. Era ele, sem dúvidas.
- O que você quer? – pergunto, sendo grossa. Passo as mãos pelo rosto para limpar as lágrimas, enquanto pego o celular para conferir meu estado. Estou perfeitamente normal, e meus olhos não estão vermelhos. Ótimo.
- Quero que você saia daí. – diz e eu rio, irônica.
- Vai sonhando.
- Você que sabe. – ele diz, ficando em silêncio. Percebo que não se mexe, mas também não fala nada. Que idiota. Não vai vencer essa, não mesmo. Uma hora ele há de sair dali. Ninguém aguenta ficar em pé em frente à porta de um banheiro por muito tempo.
Distraio-me das preocupações relativas a quando a gritaria da plateia aumenta e os acordes da primeira música começam. Sou louca por Foo Fighters e, apesar de estar trancada em um banheiro com um idiota na porta, não vou deixar de aproveitar as músicas. Aos poucos, ao fim de cada canção, vou cada vez me esquecendo mais de onde eu estou; chego a fechar os olhos para aproveitar melhor as músicas. Quando Best Of You começa, dou um gritinho de alegria e me levanto, começando a dançar e cantar a música como se não houvesse amanhã. Em uma de minhas loucas coreografias, acabo esbarrando a mão na maçaneta da porta, que abre facilmente, por não estar trancada. No momento em que a música alcança o refrão, entra e fecha a porta atrás dele, vindo até mim e me prensando contra a parede. Por um momento, inebriada por seu perfume, não tenho reação alguma a não ser encará-lo, esquecendo-me de tudo que nos rodeia. Ele encara meus lábios, como se pedisse permissão, e eu apenas sorrio brevemente, um gesto que ele interpreta como aquiescência, já que no segundo seguinte tem a boca colada a minha.
Separo meus lábios minimamente, e sua língua vem de encontro à minha, aprofundando o beijo pela primeira vez. Levo minhas mãos ao seu pescoço e ele me puxa mais para perto, segurando firmemente minha cintura. Ouço duas batidinhas na porta, mas não dou importância; seja quem for, logo irá embora.
- , sei que está aí. – ouço a voz de meu primo, e me separo de imediatamente. Que merda estou fazendo? Levo as mãos aos lábios, incapaz de acreditar no que acabo de fazer e saio correndo dali, passando direto por sem nem ao menos olhá-lo. Perdi totalmente o juízo. E a culpa é do idiota do .
vai adorar a informação. E, pela primeira vez, não quero mencionar uma só palavra a ela.
Capítulo 09.
– Demi Lovato
Dou vários e vários passos, andando sem rumo pelos bastidores do local. O barulho repetitivo do meu salto, que torturava o chão sem dó com suas incessantes e cruéis pisadas me deixavam ainda mais inquieta e meus pensamentos surgiam cada vez mais rápido, acompanhando o ritmo de meus pés que aceleravam inconscientemente; se continuasse assim, em pouco tempo eu estaria correndo. Um corredor pelo qual passei me pareceu terrivelmente familiar e percebi, a contragosto, que estava andando em círculos. Exausta e sem conseguir sentir meus dedos dos pés, me encosto ao batente de uma das inúmeras portas presentes ali. Sinto-me incapaz de acompanhar o rumo de meus pensamentos, que mudam a cada suspiro. Minha relação com tinha passado de algo corriqueiro para uma montanha russa inexplicável em um período de tempo extremamente curto, deixando-me desnorteada e perdida na discussão implacável que fora travada entre minha mente e meu coração, cada um com uma opinião; era como nos desenhos animados, em que o personagem encontrava-se com um diabinho e um anjinho, cada qual em um ombro, lhe dizendo o que fazer. Meu grande dilema era descobrir se o tal “diabinho” era o coração, ou a mente.
A parte racional de mim gritava que eu deveria fingir que o beijo nunca aconteceu, e ficar perto de apenas quando fosse exigido por nosso acordo. Já meu coração acreditava piamente que aquele beijo tinha tido um significado que ia muito além de puros negócios. Enquanto refletia sobre isso, senti a porta às minhas costas ser aberta e fui puxada para dentro. Por estar em uma péssima posição, apoiada de mal jeito, quando fui puxada acabei me desequilibrando, porém fui segurada por aquele que me puxou, que logo descobri ser...
- . – disse, impaciente e encarando a porta, com uma vontade enorme de sair por ela imediatamente.
- Nem pense nisso, . – sussurrou contra meu cabelo, já que ainda estávamos meio abraçados devido ao fato de ele ter me segurado. A proximidade estava me incomodando e não me atrevi a mexer um só centímetro. O que não pude deixar de fazer, obviamente, foi respirar; e o efeito devastador que o perfume de causava em mim me atacou novamente, me obrigando a fechar os olhos. Assim que o fiz, a lembrança dos lábios dele sobre os meus surgiu em minha mente e, no susto, me afastei, indo até o outro lado da sala parcialmente vazia e encostando a testa na parede gelada, respirando fundo. Não ouvi nenhum outro barulho e quando me virei dei de cara com , que mantinha no rosto uma expressão indecifrável. – A gente precisa conversar. E sabe qual é o mais bizarro? É você quem fica fugindo de mim, não era pra ser o contrário?
- O psicólogo doido por conversas aqui é você, não eu. – disse e ele sorriu largamente, provavelmente tendo a mesma lembrança que eu. Naquelas férias em que nos conhecemos, anos atrás, costumávamos brincar na gangorra quase todos os dias; em um desses dias começamos a conversar sobre o futuro, sobre sonhos e coisas do tipo. Falei ao garoto que eu ainda não tinha decidido o que eu queria fazer quando fosse maior, e ele revelou que gostava de conversar com as pessoas e que queria ser psicólogo. Na hora eu não sabia o que a palavra significava e nem ele sabia explicar, mas depois perguntei a minha mãe sobre isso e compreendi. Era uma lembrança antiga, sim, contudo continuava fresca na minha memória. Aquele verão fora realmente especial para mim. E eu apostava que para também tinha sido; é, meu coração havia marcado um ponto. – Ok, senhor psicólogo, me analise. – desafiei, me encostando à parede num tom descontraído. Ele deu um sorriso torto e mordeu o lábio inferior, se aproximando de mim.
- Vamos ver, por onde eu começo? – disse, me olhando de cima a baixo e dando mais um passo em minha direção. – Você está extremamente confusa por descobrir que o cara que você acha um completo idiota já foi seu amor de infância e não quer de forma alguma conversar com ele sobre isso. – riu, dando mais um passo. Agora eu já conseguia sentir seu perfume novamente; porém me concentrei no que dizia.
– Ainda não sei exatamente o motivo de tal relutância, porém acho que você tem medo do que vai ouvir. – abri a boca para discordar, mas ele me interrompeu. – Nem adianta negar, ok? Nem adianta levantar essa muralha que você construiu em volta do seu coração, porque eu sou invulnerável a ela. E o psicólogo aqui sou eu. – completou, piscando para mim e fechei a boca, respirando fundo. Eu estava com medo do que ia ouvir, sim. – Você me acha um galinha sem tamanho, um total...
- Babaca. – completei e ele riu.
- Obrigado. Um total babaca - entortou a boca com o comentário, e foi minha vez de dar um breve riso; porém eu estava nervosa demais para conseguir rir de verdade. –, além de me julgar incapaz de nutrir por alguém qualquer sentimento romântico. Mas ao contrário do que você pensa, eu já me apaixonei sim. Duas vezes. – levantou os olhos, olhando nos meus com uma profundidade que me assustou. – E pela mesma pessoa. Só que eu não sabia disso até pouco tempo. – meu coração, batendo freneticamente, me causou uma momentânea falta de ar, em conjunto com a sensação inebriante que me tomou, já que agora tinha encostado a cabeça em meu ombro, com o corpo mais próximo do que nunca. Era isso mesmo que eu tinha escutado? tinha se apaixonado por mim?
- Você vai me desculpar, senhor psicólogo, mas eu não acredito em você. Acho-o um galinha, sim, porém não acredito que já tenha se apaixonado. Com todas aquelas lindas líderes de torcida ao seu redor, como você seria capaz de se apaixonar, ? Desculpe, mas eu não compro essa. – ele pareceu bastante surpreso com a minha afirmação, já que levantou a cabeça e permaneceu me olhando por um momento, até me puxar pela mão, na direção de um comprido espelho fixado ao lado da porta.
- Você não tem a menor noção sobre si mesma, tem? – riu, divertido. – Diga se você acredita em mim agora, vendo o que eu estou vendo. – quando ele me puxou mais para o lado, me deixando completamente na frente do espelho, compreendi o que ele dizia. Não havia prestado atenção em meu reflexo até aquele momento, mas eu estava realmente muito bonita. E com uma expressão de extrema surpresa no rosto. Observei pelo reflexo se aproximar, e envolver os braços ao redor de minha cintura, de modo carinhoso. – E então? – sussurrou, e eu fechei os olhos, respirando fundo antes de tentar me afastar dele novamente.
- Não... – sussurrei, e tentei sair do meio dos braços de , mas ele me segurava com firmeza e não pude me mexer.
- Não custa nada tentar, custa? – continuava sussurrando, e deu um beijo demorado em minha bochecha quando terminou de falar. Eu me encontrava no ápice das emoções e a discussão entre meu coração e minha mente estava cada vez mais acirrada; desta vez ouvi a razão e me afastei de , cruzando os braços e retomando a postura defensiva de sempre.
- Não custa tentar? – ri, irônica. – Você acha que isso aqui é o que? Loteria? Custa tentar sim. E custa muito. Você acha que eu construí essa muralha em volta do meu coração por quê? Porque eu sou fã da arquitetura imaginária? No momento em que eu confessar estar apaixonada por você, muitas coisas vão estar em jogo; ou você acha que é fácil gostar de um perfeito imbecil? É impossível adivinhar o que passa pela sua cabeça e num segundo um mar de calmaria consegue se transformar numa violenta tempestade. Você acha que eu gosto disso? Ou que eu acho divertido? Pela primeira vez, não tenho a menor ideia de onde estou pisando, então eu acho que custa muito tentar sim. – terminei meu discurso, triunfante ao ver a expressão de espanto que havia se apoderado do rosto de ; finalmente disse a ele aquilo que estava preso dentro de mim há tempos. Ele respirou fundo, levando as mãos à cabeça. Aproveitei o breve momento e saí correndo dali, pegando um táxi e retornando ao hotel; mandei uma mensagem para avisando, senão ele ficaria preocupado.
Cansada de andar de um lado para outro, sentei na cama e equilibrei o notebook em minhas pernas, ligando-o. Tinha apenas um e-mail, de ; estranhei, nunca tinha recebido qualquer e-mail dele. Ainda mais com um assunto tão intrigante. Abri-o.
De:
[blablubla@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Leia isso
Oi, . Sei que nunca nos falamos por e-mail, e pessoalmente não temos a proximidade que eu gostaria; mas mesmo assim, me sinto no dever de lhe mostrar uma coisinha. Primeiramente, preciso lhe implorar para que nunca, em hipótese alguma, mencione a que lhe mostrei isso. Ok? Não sei se os outros caras perceberam, mas para mim é óbvio que vocês dois se gostam e tem alguma coisa impedindo vocês dois de estarem juntos nesse momento. E sabe qual é o meu palpite? O problema está em você, nerd. Você e esse seu orgulho que não dão o braço a torcer de forma alguma. Leia o e-mail que eu recebi de :
>>> Ei, dude.
>>> Sei que vai achar estranho eu te mandar um e-mail quando estamos lado a lado, mas preciso falar isso pra alguém e, bem, confio em você. E exatamente por confiar eu te peço segredo absoluto no que vou dizer agora. Sabe a ? É, essa mesmo, a nerd. Estou fodidamente apaixonado por ela. Tipo, pra valer.
>>> ...
>>> Tudo bem, lhe dou um tempinho para absorver a informação e passar o choque.
>>> Na verdade, desde que ela entrou no colégio, me sinto estranho em relação a ela. não é aquele tipo de garota fútil sabe? Ela é sincera, inteligente e... Aconteceu. Quando dei por mim já estava louco por ela. Nunca disse a ninguém, e você deve estar achando estranho eu falar justo agora, mas eu descobri uma coisa que me levou a ficar ainda mais apaixonado. Lembra-se daquela garota que eu conheci quando era bem pequeno, no verão? Aquela que foi embora e nunca mais vi, daquela foto antiga, sabe? Aquela que eu prometi que, se algum dia voltasse a encontrar, não deixaria escapar de novo? Adivinhe quem é ela. . A própria.
>>> O pior é que ela parece não acreditar que o que eu sinto por ela é pra valer, acha que ela é só mais uma. E eu não sei como provar para ela que não é. Mas ... Eu estou perdidamente apaixonado por ela, e ela aparentemente não dá a mínima para a minha existência.
>>> Minha vida é uma merda, pode falar.
>>> .
Viu só, ? O cara gosta de você, de verdade.
Agora vê se larga esse orgulho idiota e vai atrás dele. Dê uma chance para a própria felicidade, garota!
.
Minhas mãos tremiam sem parar e, após ler o e-mail várias vezes seguidas, deixo o notebook de lado e paro para pensar. Tudo o que vem em minha mente é: é verdade.
Distraio-me por um barulho vindo do corredor. Eles voltaram. O que significa que está aqui. No quarto ao lado. Quando o silêncio se espalha novamente pelo exterior do quarto, saio e vou em direção à porta de , que está entreaberta. Empurro-a levemente, mas sou surpreendida por , que está saindo. Quando me vê, sorri e pisca para mim, como se soubesse exatamente o que fui fazer ali. Adentro o quarto pé ante pé, e está de costas para mim. Apenas o observo, passando os olhos por toda a extensão do seu corpo, sem conseguir acreditar no quão cega eu estava sendo ao negar que sentia algo por ele. Era tão óbvio! Eu só me recusava a admitir. Pareço assistir em câmera lenta o momento em que ele se vira para mim, o que contrasta demasiadamente com os batimentos de meu coração, que parece bater cada vez mais rápido. Tenho a impressão de que consegue ouvi-lo, de tão freneticamente que palpita dentro do meu peito.
Quando fica de frente para mim, nos encaramos por um tempo sem dizer absolutamente nada.
Lembrando-me do motivo que me fez ir ali, sorrio brevemente e vou a passos firmes até ele, colocando a mão por trás de seu pescoço e grudando nossos lábios. Quando se recupera do susto, coloca a mão em minhas costas, me segurando com firmeza e grudando nossos corpos ainda mais. Desta vez mais consciente do que nunca, apesar de tomada pela leve insanidade que se apossa de mim sempre que estamos próximos, sou eu quem aprofunda o beijo e leva a mão livre até minha cintura, permanecendo por lá. Finaliza o beijo, e leva os lábios até meu pescoço. O sorriso em meu rosto é enorme.
De repente, o corpo de enrijece e ele fica tenso. Afasto-me dele, deparando-me com encostado na porta.
Seu semblante é fechado e em seus olhos reconheço algo que me assusta.
Mágoa.
Capítulo 10.
- Sei que você me deu todo o apoio quando lhe contei que gostava da , mas não consigo concordar com isso, . Desculpe, porém não consigo. – diz, com a voz suave. Depois que o vi parado na porta, o arrastei até meu quarto e então entramos em uma discussão terrível. Ele não concordava de modo algum que eu ficasse perto de . Nunca havíamos discutido de forma tão verbalmente violenta. Quando ele percebeu lágrimas se formando em meus olhos, levou um tempo para se acalmar e tentar me explicar a situação mais tranquilamente. Eu amava meu primo, mas não entendia o motivo de ele se opor de tal maneira ao meu relacionamento com . Se é que podemos chamar disso.
- , isso aqui não é uma troca de favores. Você não é obrigado a concordar com nada. Eu só não entendo o motivo de você parecer tão machucado. Eu fiz alguma coisa?
- Você não. . – diz o nome de modo seco, e me preocupo. Que pode ter acontecido?
A porta do meu quarto é aberta e entra. imediatamente se levanta e sai, fechando a porta atrás de si. senta ao meu lado na cama e percebo que seus olhos estão vermelhos. Deposito um delicado beijo em seus lábios e ele me abraça forte, puxando-me para o seu colo.
- Quer me contar por que vocês dois estão desse jeito? – digo suavemente, afagando seus cabelos e ele murmura um “sim”, mas demora um pouco até começar.
- No avião, quando estávamos vindo de Londres pra Milão, disse que percebeu algo estranho acontecendo entre nós dois e me perguntou o que era. Na hora, não pensei direito e disse que não, não sabia de nada. Meio que indiretamente, ele me perguntou se eu sentia algo por você; eu podia jurar que ele lhe contaria se eu dissesse alguma coisa, então prontamente respondi que não. E ele me fez prometer pela nossa amizade, que falava a verdade, e que não queria nada com você. E eu prometi, . Pela nossa amizade. Eu prometi. – a última frase sai num sussurro, e o abraço mais forte ainda. O assunto é mais delicado do que pensei.
Tomo seu rosto entre minhas mãos e penso em brigar com ele por ter prometido algo que não poderia cumprir, porém algo em sua expressão me alerta a não fazê-lo. Algo me diz que está arrependido, mas não sei exatamente por quê. Era arrependimento por ter falhado com o melhor amigo ou por ter ficado comigo?
- Eu entendo se você quiser esquecer o que...
- Não! – me interrompe, envolvendo-me mais ainda em seus braços. – Já te perdi uma vez e demorei anos pra te reencontrar. Dessa vez, eu não cometo o mesmo erro. Sinto muito, mas vai ter que entender isso. Por mais que seja difícil decepcionar meu melhor amigo, dessa vez vou lutar por você. – termina e eu fico sem palavras pela primeira vez desde que o conheci.
Com a enorme confusão instalada em minha mente, demoro a reparar no silêncio que se instalou no quarto. Desvio o olhar de minhas mãos entrelaçadas e passo a mirar a face de , que por sua vez tem o olhar fixo no chão. Tento imaginar como me sentiria se estivesse em seu lugar. E se eu tivesse falhado com ? Meu coração se aperta só de pensar. Por que faria a uma promessa desse tipo? Se bem me lembro, no e-mail ele diz que não ligo para ele; o que, obviamente, não poderia estar mais longe da verdade. acreditava tanto assim nisso a ponto de fazer uma promessa? Tais pensamentos eram complicados demais, e nenhuma solução plausível me veio a mente. Seguro seu rosto, virando-o em minha direção e tento sorrir, encorajadora.
- Ei. – murmuro e ele finalmente olha em meus olhos. – Sei que a situação é delicada, mas vamos dar um jeito. Ok? – termino e ele me olha, confuso; um meio sorriso ameaçando aparecer.
- Nós? – pergunta e eu sorrio mais uma vez.
- Estou do seu lado, . Pensei que você soubesse disso. – digo, com a voz suave, e ele se limita a um sutil dar de ombros. Envolvo meus braços ao redor de seu pescoço e ele me abraça mais uma vez.
Fecho a porta com cuidado, para não acordar que – finalmente! – havia relaxado. Miro o corredor vazio, permanecendo imóvel por alguns instantes, porém a voz de me desperta e por um momento chego a pensar que está falando comigo, depois percebo que ele está ao telefone. Aproximo-me mais da porta entreaberta de seu quarto, mas não entro.
- Pois é, . Eu sei disso. – meus instintos se acendem quando ele menciona o nome da minha melhor amiga e fico ainda mais encostada à parede. – Mas, princesa, ele prometeu! – ele reclama e meu queixo cai levemente por culpa do apelido usado por ele. – Não, a também não sabe sobre nós dois, mas eu vou contar pra ela. E vai ser logo. Juro. E deixa que com o eu me entendo, ok? Beijos, te amo. – lágrimas já molhavam todo o meu rosto, e volto correndo para o meu quarto, batendo a porta com força e sentando na cama, com o rosto entre as mãos.
e ? Juntos? Pelas minhas costas?
Sinto-me traída... Duplamente traída.
entra no quarto, e sua expressão é preocupada. Provavelmente ouviu o barulho da porta. Logo entra atrás dele e eu dou um pulo, levantando.
- Você. – aponto para ele e minha voz é áspera. – Saia daqui. Agora. – digo, com os lábios cerrados e ele arregala os olhos, confuso. Não digo mais nada, apenas deixo as lágrimas caírem sem medo. Percebo que não se mexeu e balanço a cabeça. – Tudo bem. Então saio eu. – saio de lá, e em vez de entrar no elevador, vou pelas escadas. E subo até minhas pernas começarem a doer, entrando em um andar qualquer e me arrastando até o final do corredor, onde sento no chão.
era um completo... Nem sei se existem palavras para descrever.
Faz uma ceninha por causa de , porém namora secretamente a minha melhor amiga. Não entendo até agora porque manteve tal segredo, se tempos atrás eu já havia dito que apoiava. Ele achou que eu tivesse mudado de ideia? Ou não confiava em mim o suficiente para contar? Sinto meu celular vibrar no meu bolso, e é uma mensagem de , perguntando como foi o show. Quer que eu mesma conte para que ela não precise fingir que não sabe de nada, porque o namoradinho já contou. Atiro o celular longe, porém ele bate no pé de alguém.
- . – murmuro, com a voz um pouco mais controlada. Observo quando ele vem calmamente até mim e senta ao meu lado no corredor. – Você já sabia? – pergunto mesmo já sabendo a resposta e ele me olha, confuso. Esqueci que não contei a ele o que ouvi. – Sobre e .
- Como você... – ele começa, com os olhos arregalados, e eu me limito a um dar de ombros, escorando a cabeça em seu peito, sentindo ele me abraçar e depositar um carinhoso beijo em minha testa.
Domingo – No carro, em Londres – 19h45min
E amanhã retornaremos à rotina. Ou ao que restou dela.
Eu não estava mais falando com , e ignorando as tentativas dele de se desculpar. Não atendia as ligações de , e estava cada vez mais próxima de .
Muitas mudanças para um único final de semana.
Sei que uma hora terei de falar com ele, porém quero retardar tal conversa o máximo que puder, para estar de cabeça fria quando acontecer e não falar nenhuma besteira.
Encaro minha mão, entrelaçada com a de e sorrio. Pelo menos algo de bom aconteceu. Minha mãe que o diga; sempre pegava ela nos encarando pelo retrovisor. Ela não pareceu reparar no fato de que eu e ainda não trocamos uma só palavra. Se reparou, é porque não quer comentar na frente de meu suposto namorado. Paramos em frente à casa de e ele aperta de leve minha mão, olhando em meus olhos. Assinto levemente com a cabeça. “Vou ficar bem”, é o que digo, com um leve movimento dos lábios. “Fique”, é o que realmente quero falar, porém não o faço. Ele assente e me dá um beijo rápido, saindo do carro. Observo-o entrar em casa, sumindo de minhas vistas quando minha mãe põe o carro em movimento novamente. Logo sinto seu olhar sobre mim.
Um, dois... - Qual dos dois pretende me contar o que está acontecendo? – pergunta, e um silêncio completo de instala dentro do carro. Liza dá um suspiro frustrado, porém não insiste no papo. Quando chegamos em casa subo direto para o quarto, e uns quinze minutos depois minha mãe entra, fechando e trancando a porta. Sua maneira de nos dar privacidade. Imediatamente corro até ela, que me envolve em seus braços; e esqueço-me de qualquer problema.
Minha mãe é, definitivamente, meu porto seguro. Apesar de tudo, é a pessoa na qual mais confio; sempre fomos muito próximas.
Ainda abraçadas, seguimos para a cama e sentamos lado a lado; eu finalmente vejo que ela possui um DVD em mãos. Um filme.
- Você faz a pipoca e eu o chocolate quente? – pergunta, arqueando as sobrancelhas e eu sorrio, concordando com a cabeça enquanto a acompanho até a cozinha.
Segunda-feira – Elite High School – 12h50min
Fim da aula, e nem sinal de . O que será que tinha acontecido? Eu havia pensado em ligar para seu celular, mas eu não tinha seu número. Como havia sido trocado o horário de minhas aulas, agora eu tinha matemática e o único que poderia ter o número dele e estava na sala comigo era ; para consegui-lo, teria de falar com ele. Quase todos tinham saído, mas ele ainda estava arrumando a mochila e, após um leve suspiro, segui até ali. Ele me encarou com as sobrancelhas arqueadas e eu evitei seu olhar.
- não veio hoje. – consigo dizer, e ele continua colocando os livros dentro da mochila, respondendo a minha afirmação com apenas um aceno de cabeça. – Você pode me dar o número do celular dele? – pergunto, e diz um número, que logo anoto na palma da mão. Ele fecha a mochila e começa a se virar para ir embora, mas o chamo quando está quase chegando até a porta. - Você não está nem um pouco preocupado? – meu primo abaixa a cabeça, deixando transparecer um fiapo de culpa, mas ele não se vira em minha direção, apenas dá de ombros e sai da sala.
Percebo que sou a única ali dentro, e aproveito o silêncio para ligar para . Chama várias vezes, mas ninguém atende. O que aconteceu com você, garoto? Suspiro, frustrada, e estou prestes a discar o número novamente quando entra na sala. Reviro os olhos e pego minha bolsa, prestes a sair para ir até a casa de .
- Agora não, . – murmuro ao passar por ela, mas a mesma segura minha mão com força, me impedindo.
- Agora sim, . Precisamos conversar. Você não pode me ignorar pra sempre. – quero dizer que, sim, posso ignorá-la se quiser, porém parte de mim necessita ouvir o que ela tem a dizer. Cruzo os braços, assumindo uma postura defensiva, e me viro para ela. – Eu nunca menti pra você, . E não é agora que vou começar. – suspira, olhando em meus olhos e consigo reconhecer que está sendo sincera. - Estou com desde sexta-feira. Aconteceu tudo muito rápido, e quando percebi vocês já tinham viajado. Sei que você estava cheia de coisas na cabeça e achei que fosse algo importante demais para te contar por telefone ou e-mail. Nunca passou pela minha cabeça esconder de você, . Nunca. Poxa, você acha mesmo que eu ia esconder algo assim de você? De forma alguma. Você é minha melhor amiga, eu não conseguiria mentir pra você nem se eu quisesse. E eu não quero. – estica a mão, que não hesito em segurar. Esta tinha sido minha primeira briga com desde que nos conhecemos, e depois de ouvir a verdade, que eles realmente não tinham mentido para mim, dou alguns passos para frente e a abraço forte. O som de sua risada é suficiente para que eu saiba que estamos bem novamente. – Você ia pra algum lugar ou estava apenas fugindo de mim? – pergunta e eu rio, afastando-me.
- Eu ia até a casa do . Ele não veio hoje e não atende minhas ligações.
- Eu levo você até lá. Vamos. – estica o braço, e saímos da sala, abraçadas. Logo chegamos à casa de , porém espera no carro. Vou até a porta, hesitante e com um péssimo pressentimento; nunca tenho essas coisas, mas meu coração subitamente ficou apertado. Toco a campainha, ainda receosa. Assim que a porta se abre, Lucy vem correndo até mim e acabamos colidindo.
- Segure-a! – escuto a governanta dizer, e por reflexo agarro o braço da pequena, que se contorce para soltar-se. Ela tem o rosto cheio de lágrimas e o leve aperto em meu peito se multiplica.
- O que houve, pequena? – me abaixo e seco algumas lágrimas que pendem em sua bochecha. A menininha se aninha em meus braços e ouço os passos da governanta, que chega ao meu lado parecendo nervosa. Ela acaricia as costas da menina, e tenta acalmá-la sussurrando coisas: “Ele ficará bem, ele ficará bem...”; o que acabou me deixando nervosa. Quem era “ele”? Será que... “Seu pai ficará bem.”, ela murmura, interrompendo meu raciocínio e eu fico preocupada. Havia acontecido algo com o pai de ... Será que era grave?
Aperto mais ainda a pequena contra mim e sigo até a sala, onde, com um aceno, a governanta pede para que eu leve a pequena até o quarto. Subo a escada devagar, tanto pelo peso da garota em meu colo quanto pelo fato de eu ainda estar preocupada com o pai de . Que será que tinha acontecido?
Após deixá-la no quarto aos olhares da mulher, desço as escadas devagar, ainda tentando imaginar o que poderia ter acontecido. Ao chegar ao último degrau, reparo que tem uma mulher bem vestida na sala, falando ao celular. Ela, ao contrário de mim, repara em minha presença rapidamente e com um aceno pede para que eu aguarde. Espero, sem me mexer, enquanto ela finaliza a ligação; meus instintos acendem, indagando se aquela dali não seria a mãe de meu... Bem, a mãe de . Eu conseguia perceber em suas feições certos traços familiares, mas não tinha como ter certeza.
Ela então desligou o celular e eu fiquei tensa. Fui para perto dela, receosa.
- Você deve ser a . – diz, com um fraco sorriso.
- Sim. E você é... – pergunto, apesar de já imaginar a resposta.
- Nina. Mãe de . – ela parece se lembrar de algo e dá um breve riso. – E de Lucy. Vi que você já conhece minha pequena.
- Aham. – concordo, sorrindo pela primeira vez, porém o sorriso é apenas breve. – O que houve com...
- Meu marido? – ela pergunta, dando um suspiro. – Ele passou mal hoje pela manhã e está no hospital desde então. Lucy estava com ele na hora em que desmaiou, por isso precisei ficar por aqui acalmando a menina. Não quero levá-la ao hospital agora...
- E ... - Está lá. Era com ele que eu estava falando agora. já está bem melhor, agora apenas em observação. – suspiro, aliviada. – Preciso falar com Lucy primeiro, mas dentro de algumas horas irei ao hospital também. Você quer carona?
- Não precisa. Minha amiga está aqui fora esperando. Mas obrigada. – vou até ela, dando um breve abraço, e sigo até a porta; percebendo que nem se mexeu. Ela apenas me olha quando entro no carro, e digo a ela o nome do hospital, que ouvi Nina mencionar ao telefone. Em poucos minutos chegamos lá.
Capítulo 11.
- Tem certeza que não quer entrar? – pergunto pela terceira vez e, como previ, novamente nega.
- Melhor não. – sorri e eu aceno com a cabeça, saindo do carro. Vou em direção ao hospital, sem ter a menor ideia de onde encontrar . Resolvo, então, ir até a recepção ver se alguém consegue me informar alguma coisa. Antes de chegar lá, porém, o vejo. Ele está em uma das cadeiras brancas do outro lado da sala de espera, e tem a cabeça enterrada entre as mãos. Não tem mais ninguém ali, mas mesmo assim não demonstra perceber minha aproximação. Sento ao seu lado, e ele continua sem se mover. Decido não interromper seus pensamentos, portanto permaneço calada e imóvel.
- Não pensei que você viesse. – escuto ele dizer, ainda sem se mover e sorrio por ter percebido minha presença.
- Claro que viria. Somos... – o que nós éramos? Alguma coisa entre amizade e namoro, mas qual era o termo apropriado? Amigos com benefícios? Nunca tínhamos falado sobre isso, então eu não sabia. – Eu me importo com você. – conserto rapidamente, e ele finalmente levanta a cabeça para me olhar. Seus olhos brilhantes e vermelhos me transmitem apenas carinho e sinceridade. Seu rosto está cansado, e arrisco dizer que nunca o vi tão preocupado. – Ele vai ficar bem. – tento tranquilizá-lo, acariciando de leve sua bochecha quente; ele fecha os olhos com a sensação e eu me aproximo um pouco mais. – E você também. – completo, encontrando seus olhos mais uma vez. Um esboço de sorriso aparece no canto de sua boca enquanto ele diz, segurando a minha mão:
- Agora eu vou.
Hospital – 15h50min
- O que foi? – pergunto a , assim que ele desliga o telefone.
- Minha mãe não vai poder vir. – dá um sorriso amargo – É claro que não. – abaixa a cabeça, deixando-me perplexa. Nunca imaginei que pudesse ter problemas com a mãe, já que ele parecia sempre tão... Inquebrável? Algo similar.
Sem saber o que dizer, apenas o encaro, em silêncio. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, reparo que está vindo em nossa direção. Por impulso, meus olhos se voltam para e a expressão em sua face é indecifrável. Quando meu primo para em nossa frente, decido deixa-los conversar em paz. Dou um beijo no rosto de e, sem dizer palavra, saio dali. Será que os dois finalmente se entenderiam? Eu esperava que sim. E, se tinha vindo até aqui, era porque estava disposto a esquecer de tudo o que aconteceu.
Estou tão imersa em meus próprios pensamentos que não tenho consciência da direção que estou tomando até que, sem querer, esbarro em um médico.
- Desculpe! – murmuro, seguindo por outro caminho e indo parar em frente a uma pequena cafeteria. Sem saber quanto tempo havia se passado e se os dois já tinham terminado de conversar, entro e peço um suco, com mil coisas na cabeça. Mexo o suco, distraída; porém o barulho de uma cadeira sendo arrastada à minha frente me desperta. O que me surpreende mais é ver quem acabou de se sentar à minha mesa.
- . – ele diz, com o mesmo sorriso estonteante de sempre.
- Eric Lyon. – murmuro, sem conseguir esconder minha estupefação. Meu ex-namorado estava ali, à minha frente, e eu não tinha ideia de como reagir.
- Uau. Você continua linda. – ele diz, me encarando, e eu disfarço meu desconforto enrolando a ponta do cabelo entre os dedos.
- E você continua... Você. – digo, com um breve riso. E não minto. Eric não mudou nada, fisicamente falando. Seu modo de agir, contudo, me parecia irreconhecível. – Só que mais... – continuo, mas ele me interrompe.
- Humano? – dá de ombros. – É.
- Por que você está aqui? – mudo de assunto, e ele me encara confuso. – Digo... No hospital.
- Minha namorada. Ela... – ele pigarreia, parecendo desconfortável; cruza as mãos na frente do rosto e, quando me encara novamente percebo que seus olhos brilham, tomados por uma emoção que nunca imaginei ver nele. – Descobriu que tem câncer, há algumas semanas. Está na quimioterapia. – finalmente fala, numa suavidade que me impressiona.
- E você continua aqui... – acabo verbalizando meus pensamentos sem querer, e sinto minhas bochechas esquentares. – Nossa, desculpe! Eu não...
- Tudo bem. – ele diz, com um meio sorriso, dando de ombros. – O Eric que você conheceu não ficaria. Compreendo seu espanto. – ele suspira. – Eu mudei muito depois que você foi embora.
- Como assim? – pergunto, e ele estende a mão, segurando a minha com ternura. Meu espanto é tão grande que não consigo falar mais nada. Quando foi que Lyon se transformou desse jeito?
- Sem você ali, eu percebi quão pouco valor eu dava pras pessoas importantes. Só depois de te perder eu percebi que estava realmente apaixonado por você, ao contrário do que queria acreditar. - dá um riso baixo, e acho que sei ao que ele se refere; ao momento em que descobri tudo. – Quando você se mudou, todos aqueles que falavam comigo passaram a me ignorar e eu percebi quão artificial era o mundo no qual eu me orgulhava tanto de viver. E então decidi me afastar. – sorriu, com sinceridade. – Passei a morar aqui, e conheci a Alexis. E ela me mostrou o que é se importar com alguém de verdade. Devo a ela quem sou hoje. A ela, e a você. – leva minha mão aos lábios, depositando ali um beijo. Não sou capaz de dizer nada, então apenas permaneço ali segurando sua mão até que o silêncio me incomoda.
- Fico muito feliz por você ter se tornado essa pessoa, Eric. – deixo um sorriso ocupar meus lábios. – Aprendi a deixar o medo e o orgulho de lado, e isso me trouxe alguém muito especial também.
- Ele é muito sortudo por ter você. – ele diz, e uma lágrima escorre por meu rosto. A maravilhosa sensação que me toma, trasborda por meus olhos, e eu não paro de sorrir. Qualquer coisa ruim que eu ainda guardava sobre ele se esvaiu de mim naquele segundo.
- Eu preciso ir. – ele diz, e nos levantamos. Eu seco as lágrimas com as costas da mão e ele beija minha bochecha, me abraçando. – Foi muito bom te ver.
- Eu digo o mesmo. – respondo, com toda a sinceridade que coube dentro de mim. – Estou orgulhosa de você. – sorrio, afastando-me dele, e o observo ir até o caixa. Saio dali, encontrando e na porta, com expressões surpresas. A de é magoada, e eu não entendo nada. Ele, de repente, se vira e sai dali. Ignorando , saio atrás dele. é muito mais rápido do que eu e apenas o acompanho. Ele para quando chega ao estacionamento e não demonstra perceber que estou ali.
- O que aconte... – começo, mas sou interrompida pelos lábios de , suaves sobre os meus. Um barulho me assusta e acabo aproximando nossos corpos ainda mais. Um pingo acerta minha cabeça, e percebo então que começou a chover. Não me mexo, porém. A sensação inebriante que o beijo de causa em mim, me domina de tal forma que nem me preocupa o fato de estar completamente molhada. Ele coloca a mão em minhas costas, aproximando-nos mais do que achei ser possível. Ponho a mão atrás de seu pescoço, separando nossos lábios um pouco para que eu possa respirar.
- Desculpe. – ele sussurra contra minha boca e, ao invés de explicar, aquilo apenas me confunde ainda mais. Pelo que ele está se desculpando?
- Vai me explicar o porquê de ter me agarrado desse jeito ou o quê? – pergunto, sem mover um só centímetro. Ele ri, segurando a minha mão.
- Você não muda, né garota? Sempre violenta.
- Quando você me conheceu eu já era assim, não é verdade? – digo, rindo logo depois e sem me dar ao trabalho de negar o que ele disse.
- E eu me apaixonei do mesmo jeito. – pronto, ele havia dito. Ali, na lata. Sem hesitar. E eu continuava o encarando, sem expressão, parecendo um poste. Ler e ouvir os outros me dizerem era uma coisa, agora ouvir o próprio falando, com tanta certeza do que dizia, era assustador.
- Eu... – começo, gaguejando, porém passos – ainda bem! – me interrompem. Era . Confesso que quase pulei em cima dele.
- Hey, vocês! – ele sorri, sem perceber que atrapalhava. – Saiam da chuva! Tenho novidades. – solto a mão de imediatamente e vou correndo até meu primo, sem mirar na direção do outro em nenhum momento. Encaro, ao invés disso, o celular que está segurando. – Acabei de falar com Rachel e ela disse que...
- Espere... – interrompe. – Quem é essa?
- A filha do diretor. – ok, confesso que dessa eu também não sabia. – Enfim. Falei com ela e ela disse que está se mudando... – olhou significativamente para nós dois – Ou seja... Um novo diretor estará na escola amanhã e o “namoro” – fez aspas no ar – de vocês não será mais necessário. Na escola. Fora dela, é claro, se vocês quiserem continuar... – deixa a insinuação no ar, saindo dali.
Não preciso olhar para o lado para saber que me observa. Sinto seu olhar sobre mim, ainda mais quando o único barulho ali era o da chuva, que agora caía mais violentamente do que antes; é impossível não reparar no silêncio constrangedor.
- Aconteceu alguma coisa? – ele pergunta, mantendo a distância. Obviamente percebeu meu desconforto, ou pelo menos desconfiava dele. – Foi o que eu disse? Você...
- Não! – me viro para ele, o interrompendo. – Não tire conclusões precipitadas, por favor. Conversamos amanhã. Prometo. – sem dar tempo para que ele responda, saio dali rapidamente, ligando para e pegando carona com ela até minha casa.
Chegando lá, deito na cama, mas não durmo. Permaneço encarando o teto e sem o menor sono.
Então tinha dito... Estava apaixonado por mim. Eu sabia que a reciprocidade era verdadeira, apesar de não ter como ter certeza disso. Ter que fingir namorar alguém por quem você não é apaixonado é fácil; mas quando isso muda, a coisa complica. Como eu agiria daqui pra frente? Se eu confessasse meus sentimentos, iríamos evoluir para algo mais sério... Correto? Estaria – o popular e “pegador” da escola – pronto para algo assim, pra valer?
Eu iria arriscar e descobrir por conta própria?
Ah, iria sim.
Capítulo 12.
- Bom dia! – digo, enquanto desço as escadas; e então percebo que minha mãe não está ali, apenas . Vou até ele, beijando sua bochecha.
- Espere... Isso é um sorriso? – ele diz, me encarando com uma expressão engraçada – A essa hora da manhã? Já sei! – sorri também – Está ansiosa para a viagem. Acertei? – a viagem! Eu iria para Paris no dia seguinte! Não tinha arrumado coisa alguma ainda! Como pude esquecer? Com tudo o que estava acontecendo, acabei não pensando nas férias que estavam chegando. – Pela sua cara, acho que errei. Se não é por causa da viagem, então por que seria?
- Cadê a minha mãe? – pergunto, ignorando as perguntas de .
- Arrumando as coisas da sua viagem, né cabeçuda! Já que pelo visto você nem lembrava que ia pra fora do país. – ele ri, e eu dou um tapa em sua cabeça – Agora sim te reconheci. Aquela felicidade toda estava me assustando, sabia?
- Ai , cale a boca. – eu ri novamente, apesar de preocupada. Como pude esquecer algo assim? A viagem pela qual esperei tanto! Era uma tonta mesmo.
- Você não vai à aula hoje? – ele pergunta, e eu o olho, confusa.
- Ué, claro que vou. Por que a pergunta? – não responde, apenas aponta para o relógio e eu dou um pulo. Era muito tarde! Eu já tinha perdido as primeiras aulas e já estava quase na hora do intervalo! E ? Ele estava esperando uma resposta minha! E se tivesse interpretado meu atraso – ou falta – como um “fora”? Droga.
Sem pensar mais, subo correndo e pego minha mochila, saindo em disparada, sem me despedir de .
- , espere! – ele grita, mas eu já estou longe demais para voltar, então apenas mantenho meu ritmo, parando para descansar apenas quando chego na frente da escola, escutando o sinal indicando que o intervalo tinha começado. Entro devagar, e ninguém me pergunta o que estou fazendo ali tão tarde; simplesmente caminho até o pátio.
E então o vejo. . Ele está do mesmo jeito do primeiro dia de aula desse ano, quando o vi na escola pela primeira vez. Só que dessa vez as circunstâncias eram muito, mas muito diferentes. Ao vê-lo cercado por aquelas líderes de torcida estúpidas, meus olhos se enchem de lágrimas. E, bem na hora, o idiota olha para mim. Seus olhos se arregalam, mas eu saio praticamente correndo dali, sem prestar atenção no local para onde estou indo (isso está se tornando um hábito); deixo meus pés me guiarem, só quero me afastar.
Minha mente gritava “canalha, canalha, canalha! E você, estúpida, acreditou nele!”. Eu sabia que, tecnicamente, não tínhamos nada. Mas, pô, ele tinha dito ontem que estava apaixonado por mim. Mudou de ideia assim, do nada? Pensei que ele tinha mudado... Mas é óbvio que não mudou. Eu deveria ser só parte de uma aposta, e agora simplesmente fingiria que nada nunca tinha acontecido. Ia tudo voltar a ser como era antes, quando nem conversávamos direito?
Paro quando quase bato a cara na parede, percebendo que fui parar na biblioteca; há estantes ao meu redor e a única saída dali é o lugar por onde entrei. Ótimo. Não quero companhia. Escondo o rosto entre as mãos, na tentativa de acalmar os nervos. Aproveito para sumir com qualquer lágrima que ameaçava aparecer. Não iria chorar por isso, não mesmo.
Quando tiro as mãos do rosto, levo um susto e acabo batendo as costas na parede.
- O que você quer? – falo, irritada, mas não se abala.
- Precisamos conversar. – ele diz, e eu rio baixo, de forma irônica.
- Jura? – rio novamente – Acho que não. Já entendi o recado, ok? – dou um passo à frente, mas abre os braços, fechando totalmente a passagem e me impedindo de sair dali.
- Recado? – ele parece confuso e tenho vontade de socá-lo – Que recado?
- Você conseguiu o que queria, . Parabéns. – digo, irônica – Pode voltar lá para os seus amiguinhos e líderes de torcida. A nerd irá sobreviver. – tento passar novamente, mas desta vez ele me segura pelos ombros.
- Do que você está falando, ?
- Pra você é . – é tudo o que digo, afastando os braços dele para finalmente sair dali.
Meio correndo, meio andando; só o que sei é que em poucos segundos estou no meio do pátio. Quando acho que vou conseguir ir embora, ele me alcança e segura meu braço, puxando-me contra si. Minha raiva se mistura com a mágoa e eu não consigo mais identificar o que estou sentindo.
- Por que você está agindo desse jeito? – ele fala baixo e, já que estamos próximos, escuro perfeitamente. Sinto olhares sobre nós, mas não me mexo. O que me impressiona é que ele parece realmente surpreso. É isso que me move, e acabo dando uma risada irônica, me afastando dele.
- Que jeito? – falo alto, o que atrai a atenção das pessoas ao nosso redor, mas não me importo; nem olho em volta – Algum outro além do da idiota que você achou que eu fosse? – ele arregala os olhos e eu reviro os meus. Lágrimas ameaçam aparecer, mas eu as afasto; sentindo raiva de mim mesma por me sentir tão fraca e dependente de tais emoções. Eu costumava saber controla-las, parece que perdi essa habilidade – Parabéns, . – bato palmas, o que dá um ar sombrio ao pátio, que está completamente silencioso. A raiva ameaça tomar conta de mim, e eu me esforço para controlá-la. – Conseguiu. Eu me apaixonei por você. – confesso, balançando a cabeça, e escuto algumas exclamações de surpresa vindas da “plateia” – Mas não se preocupe... – completo, amarga – Eu vou superar. – termino, indo embora correndo para casa e finalmente deixando as lágrimas, visitantes tão incomuns a mim, tomarem conta de meus olhos e, numa fração de segundo, de meu rosto inteiro.
Três horas depois...
- , abre a porta, por favor. Sou eu. – escuto a voz de e vou correndo até o banheiro, enxugando minhas lágrimas e lavando o rosto, abrindo a porta logo depois. entra sem dizer nada, apenas se senta em minha cama. – Ele não...
- Se for pra defender o idiota, nem comece. – interrompo, já cansada daquele assunto. Eu tinha passado as últimas horas preparando as coisas para a minha viagem e decidira continuar fazendo isso até o dia seguinte pela manhã, quando eu partiria. Ignorar seria a melhor decisão a partir dali, eu já tinha conhecido alguém parecido com ele e não queria passar por todo o sofrimento de novo. Era uma atitude infantil, mas eu decidi simplesmente ignorar meus próprios sentimentos e tudo o que tinha vindo junto com eles.
- Você pode pelo menos me escutar? – ele pede, levantando e parando em minha frente – Se não quiser acreditar ou se preferir me expulsar daqui, eu vou entender. – quando escuto a última parte, dou um beijo em sua bochecha, sorrindo fraco. Ele sorri também, sabendo que tinha me convencido, mas logo fica sério novamente. – Que fique bem claro que eu só estou te contando isso porque ele é o meu melhor amigo e eu devo isso a ele. Mas acho sem sentido o que ele fez. Ok? Em minha opinião não justifica nada. – concordo e ele continua – Ele só fez aquilo porque ontem, quando ele se declarou pra você, você reagiu de forma estranha e ele achou que aquilo fosse um sinal de que você não ia querer nada com ele e ficou com medo de levar um fora. Ridículo, eu sei. Mas é a verdade. Ele nunca quis te magoar e nessa parte eu realmente acho que ele foi sincero.
- Ele devia ter pensado nessa parte antes, né. – respondo, e sai dali, me deixando sozinha. Volto à minha arrumação, mas os pensamentos não me abandonam.
era um idiota, idiota, idiota.
Mas, droga.
Eu amava aquele idiota. Pra caramba.
Capítulo 13.
Minha mãe me acompanha até o local do check-in e em poucos minutos estamos instaladas em frente à sala de embarque, faltando meia hora para meu voo. Ela não entendeu o fato de eu não querer esperar , mas não julgou ou perguntou nada; coisa pela qual agradeceria em outro momento. Depois de um dia inteiro tentando esquecer e ignorando suas tentativas de falar comigo, estava exausta desse assunto e não suportaria ter que explicar tudo a ela. Foi uma surpresa que ela tenha respeitado isso. Talvez eu não tenha sido a única a mudar durante esse tempo.
Assusto-me quando vejo entrando no aeroporto, e ele vem quase correndo até mim, me dando um abraço.
- Ei, quase que eu perco você, hein? – ele diz, rindo, mas não me solta. Permanecemos abraçados e eu rio, sem jeito.
- Desculpe não ter esperado por você, é que...
- Eu sei. – ele me interrompe – Você me viu saindo para conversar com , não é? E não quis que eu desse um jeito de vocês dois conversarem. Eu te entendo, priminha. Não se preocupe. Eu nunca te pressionaria. – ele diz com a voz suave, e eu acho estranho que ele permaneça me abraçando; deve estar já sentindo minha falta.
Meu voo é anunciado nos alto-falantes e eu tento me afastar de meu primo, que permanece no abraço.
- ... Eu preciso ir.
- Eu sei. Só mais um pouquinho... – ele suspira – Vou sentir tanto a sua falta...
- Eu sei, priminho. Eu sei. Eu também vou. Mas nem vou ficar fora por tanto tempo assim, viu? Vai passar rapidinho. – respiro fundo, acariciando suas costas – E aproveito pra esquecer o . – falo baixo e ele ri.
“Última chamada para o voo...”
- Eu, sinceramente, espero que você não faça isso. Vai logo. Boa viagem. – diz, misterioso, finalmente me largando. Dou um abraço em minha mãe e aceno para eles enquanto vou em direção ao avião.
No portão de embarque, percebo que sou a única atrasada. A aeromoça me espera com um sorriso no rosto, como se me conhecesse, e eu acho estranho, porém não falo nada, apenas entrego a ela minha passagem. Ela demora um pouco para liberar minha entrada, conferindo coisas que eu não achei que fossem necessárias. Finalmente, uns cinco minutos depois, ela me indica o caminho até o avião, desejando “uma ótima viagem” de forma tão animada que, mais uma vez, encaro de forma suspeita. Será que eu a conhecia de algum lugar?
Quando chego perto da aeronave, a aeromoça e o piloto estão parados na porta, e se afastam, permitindo a minha entrada. Quando adentro o local, acho estranhíssimo o silêncio presente ali; já que em todas as outras viagens que eu tinha feito o interior dos aviões era tão barulhento, várias pessoas conversando ao mesmo tempo, de forma frenética.
E então paro no corredor entre as poltronas, sentindo meu coração chegar à boca.
Ele estava ali.
.
Do outro lado do corredor, apenas a alguns passos de distância. Nas mãos ele tem um telefone, aquele que as aeromoças usam para se comunicar com os passageiros.
- Sabe... – ele começa, e sua voz ecoa por toda a aeronave. – Quando eu era pequeno, conheci uma menina. Ela era linda. – ele sorri largamente, e eu sinto minhas pernas ficarem bambas. Eu sabia de quem ele estava falando - Amei-a durante muito tempo, apesar de só termos nos visto durante algumas semanas. Foi ela quem me ensinou o que era estar apaixonado e, apesar de não saber disso na época, eu fiquei completamente apaixonado por ela. Foi minha melhor amiga durante um verão. Muitos anos depois, quando já não acreditava mais no amor e nem em nada parecido, outra garota entrou em minha vida. Ela era ainda mais linda. E eu a amei com a mesma facilidade. – nesse momento, senti meus olhos ficarem marejados. Esse era o poder que exercia sobre mim. Eu era quase uma pedra de gelo, mas era só ele aparecer que todas as minhas defesas desmoronavam – Qual foi a minha surpresa, então, ao descobrir que as duas eram a mesma pessoa? – ele respira fundo, olhando em meus olhos – Eu nunca fui bom em expressar meus sentimentos, e isso me fez cometer uma besteira muito grande, com medo de me magoar. O que eu não reparei foi que, com isso, acabei magoando outra pessoa. A minha garota. Aquela que eu prometi para mim mesmo que nunca decepcionaria, porque, dentre todas as outras mulheres do mundo, era ela quem detinha cada pedaço do meu coração. E ela nem ao menos tinha se esforçado para conseguir isso. – não estamos tão próximos um do outro, mas vejo seus olhos brilharem com uma intensidade que me afeta ainda mais. Meu coração bate em uma velocidade louca – Cada uma dessas rosas... – ele começa, e cada passageiro do avião levanta uma rosa vermelha acima da cabeça. De repente, várias delas entram em minha linha de visão. Quantas tinham ali? Cinquenta? Cem? Eu não fazia ideia. Mas eram muitas – Representam mil motivos pelos quais eu quero você de volta. Mas o maior deles você já sabe... – diz, soltando o telefone e vindo em minha direção. Ele para a um passo de distância, e olha diretamente em meus olhos, desviando-os apenas para tirar uma rosa do bolso, e entregá-la a mim. – Eu te amo. Muito. Mais que tudo. Volta pra mim? – a sinceridade em seu olhar é tanta que nem hesito em deixar um sorriso tomar conta do meu rosto.
- Sempre. – sussurro, colando nossos lábios. Escuto uma explosão de palmas e assovios, que me fazer rir contra a boca de . Ele me segura pela cintura, nos aproximando ainda mais. Separo-nos um pouco, apenas por um instante, para dizer a ele aquilo que eu sempre soube, mas nunca admiti. – Eu te amo, idiota. Nunca duvide disso. – ele sorri largamente, me abraçando forte. – Como te deixaram entrar aqui?
- Do mesmo jeito que deixaram todos os outros. Eu vou a Paris com você, amor. – ele responde, e eu rio, beijando-o novamente.
Essas, definitivamente, seriam as melhores férias de todas.
N/A: Olá! Antes de tudo queria esclarecer uma coisa pra vocês: Não, o seu guy não comprou a passagem pra Paris naquele momento, ele já estava planejando ir pra lá, as coisas só se “completaram”. Achei que ia cortar o clima se eu explicasse ali no meio da cena, mas foi isso; não se assustem, ele não chegou simplesmente e disse “ah, to a fim de viajar”, não ÇSDOKFDÇOSKFÇ
Enfim... Tô meio triste, mas feliz ao mesmo tempo. Escrever essa fic foi um desafio porque, por mais que eu esteja no colegial, não nasci pra escrever fanfic colegial SÇODFKÇOSDFK A ideia da fic me pareceu boa quando surgiu e eu decidi dar uma chance para mim mesma e encarar o desafio. Eu gostei muito dessa fic. E eu gostei muito de escrevê-la.
Quero agradecer por todos os comentários, tweets, e-mails, perguntas e mensagens no tumblr e no formspring. Tudo isso me fez continuar a lutar contra os bloqueios e terminar isso aqui. Muito obrigada mesmo por terem acompanhado a evolução da Only Business e a minha própria evolução, porque sei que aprendi muito escrevendo essa fic.
Eu amo vocês; e vou aproveitar para citar alguns nomes em agradecimento: Bruna, Paula, Luisa, Mariana, Caroline, Luisa, Luíza. E também às diferentes beta-readers e amigas que me acompanharam nesse processo: Anna, Ana, Mandy, Fran, Jaque, Sevie. Obrigada, obrigada, obrigada a tooooodas que fizeram parte desse projeto de alguma forma!!!!!
Obrigada a vocês, leitoras lindas, que me aguentaram durante esse tempo todo. Espero ter dado um final digno para vocês. Comentem e me digam o que acharam! :D
Nos vemos por aí em muitas outras fics, prometo!
Um beijo e um queijo
Tracie
Caso queira fazer um comentário, ou me perguntar alguma coisa, eu ia ficar muito feliz :D
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