Only Business (1)


Capítulo 01.

Londres – Segunda-feira - Casa dos - 06h45min
Um barulho insuportável perturbava meu sono, mas não me atrevi a abrir os olhos. Depois de muito esforço consegui mover o braço e o estiquei na direção do som, tateei o que eu imaginei ser a mesinha de cabeceira e sem querer esbarrei a mão em alguma coisa, fazendo-a cair no chão. O barulho continuava. Ah, merda. Alvo errado. Continuei tateando o local, até que bati o punho em algo duro e quadrado. Meu despertador. Segurei-o, mas ele caiu de volta na mesa. Eu não estava muito disposta, não tinha muita força para desligá-lo. Coloquei o braço na frente dele e fui escorregando-o pela mesa até ouvir o barulho de algo quebrando e depois o silêncio. Finalmente! Respirei fundo, mas quando eu estava quase dormindo novamente, ouvi alguém abrir a porta.
Só pode ser brincadeira.
- Que barulho foi esse, ? – minha mãe falou, entrando no quarto. Eu permanecia com meus lindos olhos fechados. – Não acredito nisso. Mais um? – sua voz demonstrava um pouco de irritação. Acho que ela viu o despertador despedaçado no chão. Mas é só um palpite. – Já é o terceiro essa semana, minha filha. Vou começar a fazer você colocar o alarme do celular pra funcionar, quero ver se ele você destrói!
Bufei, ainda com os olhos fechados. Ela achava mesmo que se o alarme fosse no celular eu não iria atirá-lo no chão? Meu celular cai no chão quase todo dia, uma vez a mais, uma vez a menos não ia fazer a menor diferença. Ouvi o barulho do salto alto – minha mãe é executiva, usa um sapato de salto preto todos os dias - batendo no chão e depois uma luz irritante invadiu meus olhos.
- AAAAAAAAAAH! DESLIGA ISSO. – gritei e minha mãe riu.
- Não tem nada ligado, querida. Eu só abri a cortina.
- Então fecha. - Bufei novamente, enfiando a cara no travesseiro. Tive a vã esperança de que minha mãe me deixaria em paz, mas a dona Liza não é assim tão legal com sua pobre filha preguiçosa. - Não fecho. Você tem aula, vai se arrumar.
- Eu não vou hoje. – abri os olhos e olhei para ela, que estava de braços cruzados e veio até mim, arrancando meu lençol sem a menor piedade. – MÃE! – resmunguei, tentando pegar o lençol de volta com um braço só, mas obviamente não consegui.
- , se você não levantar dessa cama agora... – ela nem se deu ao trabalho de terminar a ameaça, saindo a passos firmes do meu quarto e levando meu lençol junto. Ah, mãe! Assim não vale. Ok, eu consigo. Suspirei, me espreguiçando e virando de barriga pra cima, encarando o teto por alguns minutos. Levantei de uma vez, o que me deixou um pouco tonta e com a mão na cabeça fui até o banheiro, batendo a porta. Fiz minha higiene matinal e saí do banheiro sem nenhuma animação, abrindo o armário. Fitei as roupas por alguns segundos, apesar de já saber o que vestir. Eu sempre vestia a mesma roupa, dã. Tirei meu pijama, atirando-o em cima da cama (meu cálculo foi um pouco falho, considerando que ele caiu no chão. Mas o que vale é a intenção, não é?), vesti um sutiã e procurei minha blusa dos Beatles. Depois de revirar o guarda-roupa inteiro, achei-a no meio dos sapatos – como ela foi parar lá eu não tenho ideia – e a vesti rapidamente. Fui até o banheiro e peguei minha calça de malha cinza – uma malha toda larga e super confortável, vale ressaltar - que estava pendurada atrás da porta. Coloquei-a e fui atrás do meu all star. Não o encontrei. Pus meus óculos e prendi meu cabelo num rabo de cavalo mal feito, descendo (ou seria rastejando?) pelas escadas.
Cheguei lá em baixo e meu primo já devorava os waffles que nossa empregada alemã Frida – uma mulher alta, um pouco gorda, muito branca e loira – fazia.
- Frida, você viu meu all star? – perguntei, sentando ao lado de . Ela saiu em direção à lavanderia e logo voltou com meus tênis. – Obrigada! – eu sorri.
- Sua mochila está jogada no sofá. – ela lembrou e eu ri. Estava mesmo esquecendo a mochila.
Coloquei os tênis de qualquer jeito, sem amarrar o cadarço e, depois de lavar as mãos na pia, peguei um waffle.
- Porque você sempre vai com essas roupas pro colégio? – perguntou, me olhando de cima a baixo.
- De novo isso? – perguntei quando terminei de mastigar. – Já te disse, gosto de me sentir confortável.
- Mas você não consegue se sentir confortável com um vestido, uma saia ou sei lá? Tem que ser com essas roupas todas largas? – ele falou e eu ri, balançando a cabeça negativamente.
- Você sabe que eu não gosto dessas coisas.
- Pra sair com a sua mãe você sempre vai de vestido. – ele disse, dando uma enorme mordida em outro waffle.
- Ela me obriga. – eu ri novamente.
- Depois você não sabe porquê meus amigos te chamam de nerd. Se você usasse umas roupas mais normais pra uma garota, talvez eles te tratassem direitinho.
- Se eles forem falar comigo só pela beleza que eu não tenho, prefiro ser só sua amiga.
- Ok, acho que você está certa. Desculpa. – ele pegou minha mão e beijou-a. – E você é absolutamente linda, ok? Eles só não veem isso porque você se esconde atrás dessas roupas e desses óculos. Mal sabem eles que você é a garota mais legal e linda dessa cidade.
- Obrigada. – eu sorri, pegando mais um waffle.
é meu primo, tem a mesma idade que eu e estudamos no mesmo colégio. Ele mora aqui desde que seus pais morreram (isso faz quatro anos) e é meu melhor amigo. Só que os melhores amigos dele – , e – são uns idiotas, vivem me zoando e me chamando de nerd. Eles me tiram do sério! Só porque eu não gosto de usar maquiagem, uso óculos e roupas largas – e confortáveis, não esqueçam – eles acham que eu sou algum tipo de alien e não entendem porque o fala comigo. Mas eu não me importo, eles são uns idiotas, só são populares porque são bonitos. E delete a última frase.
Mais um detalhe: eu sou um pouco amiga deles, mas só um pouco. Eles falam comigo quando vem aqui em casa, só no colégio que é essa implicância. Apesar disso, se eu precisar de alguma coisa – fora do colégio, claro – sei que eles vão me ajudar. Sou prima e melhor amiga do melhor amigo deles, é meio inevitável a convivência.
- ? – chamou, me assustando. Ele estava com a minha mochila pendurada em um ombro e a dele no outro, com a chave do carro em mãos. Como ele saiu e eu nem vi? Eu hein, estou cada dia mais lerda. – Vamos?
Concordei com a cabeça, indo até o escritório me despedir de minha mãe - que milagrosamente não tinha saído ainda - e seguindo com até o carro.

Elite High School – 07h25min
O Elite High School era um colégio relativamente grande, os muros eram beges e o portão preto. Era bem sofisticado e cheio de regras, mas mesmo assim tinha muitos alunos. estacionou o carro e eu desci. Como de costume, cada um foi para um lado: foi falar com os
idiotasamigos e eu fui falar com as minhas amigas. – de costas para mim – conversava animadamente com Danielle e Samantha; aproximei-me delas e dei um tapa na bunda de , que gritou.
- QUEM FOI, Ô ANIMAL? – ela berrou, antes de olhar para mim. Virou, me fuzilando com o olhar.
- Múúúúú... – imitei, começando a rir, logo Dani e Sam me acompanharam. me deu língua e gargalhou. - Bom dia.
- Bom dia, perturbada. – ela riu novamente e fomos as quatro sentar em um banco perto da sala de Sam e (elas teriam aula de filosofia no primeiro horário). Avistei sentado com os amigos em algum lugar mais longe, quando viu que olhei para ele, piscou para mim e eu ri. Dani me cutucou.
- Vamos pra festa da Junie? – ela perguntou.
- Com certeza! – respondeu.
- Não perco por nada. – Samantha complementou.
- Acho que eu vou. – dei de ombros.
- Vai nem que seja arrastada. – Sam colocou o indicador na minha cara, ameaçadora.
- Então tá, né... – falei, rindo.
- Fala, nerd! – ouvi dizer, chegando perto de nós com os outros três logo atrás.
- Bom dia, . – dei um sorrisinho irônico, olhando pra ele.
- Já fez o trabalho de literatura? – perguntou, como quem não quer nada.
- Bela tentativa. – sorri ironicamente de novo, levantando e entrando na sala de Sam e .
- E no começo do ano você abaixava a cabeça e dava o trabalho pra eles copiarem. Nem parece que só passaram alguns meses de aula. – Dani riu e eu tive que concordar. No começo do ano eu tinha medo de responder a eles, porque ainda não era popular e eles nem sabiam que eu existia, não sabia o que eles podiam fazer comigo. Agora já sei que eles só perturbam mesmo e me chamam de nerd, além de serem uns retardados. Mas eu não tenho medo deles e não faço mais trabalho pra ninguém. Resumindo: parei de me importar com o que eles pensam de mim e não faço mais favor pros três patetas sem receber nada em troca (mês passado fiz o trabalho de filosofia pro , mas ele me ajudou a convencer minha mãe a me deixar ir pra Paris nas férias. Ainda não sei como ele conseguiu isso, mas conseguiu).
Sentei em cima da mesa de Sam, que estava na cadeira, e as meninas ficaram ao nosso redor. Conversamos sobre coisas sem importância e o sinal tocou. Dei tchau para elas e fui em direção à minha sala, quando estava quase chegando lá, vi vindo em minha direção, ele tomava um copo enorme de suco de morango e fingiu me ignorar. Ou pelo menos foi isso que eu achei. Desviei dele quando passamos lado a lado, mas ele virou para o mesmo lado que eu e derrubou o suco todo na minha blusa dos Beatles... Esse cara tá tão ferrado.
- FILHO DA PUTA! – gritei, dando um tapa nele, que encolheu o ombro.
- Desculpa! Caramba, eu não te vi aí, desculpa mesmo! – ele fingiu se preocupar, como sempre. Idiota. Bufei e saí em direção ao banheiro, quando estava quase chegando lá ele segurou meu braço.
- O que foi? – falei, grossa, me virando para ele. Por alguns segundos achei ter visto culpa em seu olhar, mas foi só por alguns segundos. Uns meninos passaram e ficaram olhando a cena, desde quando o popular falava com a nerd? percebeu e deu aquela risada irônica, apontando pra minha blusa.
- Bem feito, nerd. Quem mandou ficar no meio do caminho? – ele riu de novo, olhando pra trás e os meninos tinham ido embora. Suspirou e sussurrou, próximo ao meu ouvido. – Se não quiser aparecer com a blusa assim na aula, no meu armário tem um casaco, comprei ontem então os caras não vão saber que é meu, pode ficar com ele pra não aparecer essa mancha. Desculpa mesmo, eu te dou uma blusa nova, prometo. A senha do meu armário é 1326. Te vejo na sala. – ele deu meia volta e foi embora. O que foi isso? Ele abriu uma exceção à regra de não falar comigo civilizadamente no colégio? Se fosse um dia normal, ele ia me pedir desculpas só quando fosse lá em casa com o , e como sempre eu ia fingir que aceitava e que não ligava. Espero mesmo que esse retardado me dê uma blusa nova, senão teremos problemas. Fui até o armário e peguei o casaco, vestindo-o imediatamente, fechando o zíper até cobrir totalmente a mancha. Peguei a mochila e fui pra aula de biologia. Ainda bem que a Sra. Grace ainda não tinha chegado, senão ela provavelmente não me deixaria assistir aula. Entrei e sentei na cadeira entre e Dani. Logo a professora apareceu, mas ela veio acompanhada do diretor. O que será que houve? Coisa boa é que não é.
- Bom dia. – Sr. Ottman começou a falar, sério. – Recebi muitas reclamações sobre essa turma, com relação a conversas paralelas na hora da aula da Sra. Grace. – ah, ele vai só brigar com os populares retardados que passam a aula conversando. – Já é a sétima vez esse ano que eu venho aqui alertar vocês sobre isso. Resolvi tomar uma decisão mais drástica dessa vez. – o que? Vai suspender os que conversam? Isso mesmo, diretor. Muito bem! Eu não converso mesmo. Ele levantou um papel. – Sabem o que é isso? – alguns disseram “não”, outros idiotas gritaram “um papel?”, causando algumas gargalhadas. – Isso é um mapeamento. Coloquei todos vocês em lugares fixos, que vão ser dessa forma até o final do ano. Quem não cumprir, terá uma semana de detenção. – Como? Ele só pode estar de brincadeira. Vai sobrar pra mim? Fala sério. – Estamos entendidos? – não, seu velho. Não estamos entendidos. Do jeito que eu tenho sorte ele vai me botar do lado de um idiota. – Destiny? – ele apontou para uma das meninas sentadas na primeira fila. - Por favor, distribua um papel desses para cada um de seus colegas. E vocês vão cada um para o seu lugar, ok? – ele disse e saiu, voltando depois de alguns segundos. – Sr. ? Vá até a minha sala, precisamos ter uma conversa – ele apontou para , que saiu se arrastando da sala. O que será que ele fez? Não sei o que é, mas é bem feito. Ele vive conversando durante a aula de biologia. Mas que eu quero muito saber o que é, isso eu quero. Destiny chegou até mim e me deu um papel, achei meu nome e vi que estava sentada na quarta fileira. Estou sentada do lado de Danielle... Amém! E quem é do outr... ?! Só pode ser piada, não creio nisso, não creio. Não falei que eu ia sentar do lado de um idiota? Não falei? Pelo menos ele não está aqui agora.
Fui até meu lugar e sentei, Dani já estava lá e comemorou o fato de nós duas continuarmos sentadas juntas. Viramos para frente e Sra. Grace começou a aula. Vou confessar uma coisa: eu adoro biologia. Mas não estudo quase nada em casa, só presto atenção na aula.
Depois de uns dez minutos, voltou para a sala, com o papel do mapeamento em mãos e sentou ao meu lado, abrindo o caderno e fazendo alguns desenhos. Voltei a prestar atenção na aula, mas depois de alguns minutos a professora parou de falar e olhou para o idiota ao meu lado.
- Senhor , onde está seu livro? - Eu... – ele pareceu pensar em uma desculpa. – Esqueci em casa.
- Então sente com a e acompanhe pelo livro dela.
Que? Não mesmo!
- Não posso sentar com o ? – ele perguntou, olhando , que tinha sentado ao seu lado.
Isso, por favor, sente com ele.
- Você ouviu o que eu disse? Sente com a senhorita . – falou, autoritária e voltou a dar aula como se nunca tivesse parado. me olhou, relutante, mas levantou com uma má vontade enorme e colou sua mesa na minha, colocando a cadeira lá e sentando pesadamente. Quando a professora olhava para nós, ele inclinava a cabeça e fingia olhar meu livro, do contrário só mexia as pernas e batucava alguma coisa batendo a mão na coxa. Peguei um lápis e risquei o topo da página – “Obrigada pelo casaco, apesar de eu não saber o motivo de você ter me ajudado. E eu espero mesmo que você me compre uma blusa nova.” leu, sorrindo de lado (que droga, esse menino tem um sorriso lindo! E eu nunca disse isso) e pegou um lápis no próprio estojo, respondendo. – “De nada. Não sou tão malvado quanto você pensa, ok. E eu vou te dar outra blusa, não se preocupe.” – Demorei um pouco para entender, a letra dele não é a mais legível de todas. Lembrei que ele tinha saído e resolvi matar minha curiosidade, peguei o lápis de novo e escrevi na outra página – “O que o diretor queria com você?” – ele demorou alguns minutos para responder, como se pensasse se eu sou confiável. – “Estou por um fio em biologia, se não tirar um A nas próximas três provas vou repetir o ano. E se eu repetir o ano minha mãe me obriga a sair da banda”“Mas o ano mal começou!!!”“Pra você ver como eu sou bom nessa matéria.”
Quase ofereci ajuda, mas compreendi o que ele queria. Ele queria que eu oferecesse ajuda sem pedir nada em troca. Até parece.
“Eu sei que você quer a minha ajuda, mas você sabe que eu não ajudo sem receber nada em troca.” Ele riu baixo, confirmando minhas suspeitas.
“Nem estava pensando nisso... Ok, talvez eu estava. Você tem uma semana pra pensar no que quer em troca de me ajudar a passar, senão arrumo outra pessoa.” Segurei uma risada. Ele estava falando sério? Não vou pensar em nada, se ele quiser arrumar outra pessoa pra ajudar, ele que arrume. Ele fala como se ele fosse fazer um favor pra mim se eu o ajudasse, até parece. Balancei a cabeça negativamente e peguei uma borracha, apagando a ”conversa” e voltando minha atenção para a aula. Garoto mais patético.
Biblioteca do Elite High School – 10h10min

Eu estava na biblioteca comendo calmamente minha barrinha de cereal e lendo um livro do Nicholas Sparks; eu gostava de passar o intervalo lendo na segunda-feira, não tinha paciência pro bom humor matinal das minhas amigas. Sim, sou estranha. Mas não se preocupe, nos outros dias eu passava o intervalo com elas, a única exceção era segunda mesmo.
Minha barrinha acabou e coloquei o papel no bolso da frente da mochila, pra jogar no lixo depois. Não estava com paciência de ir até o lixo agora. Olhei pra frente e levei um susto ao ver sentado a minha frente.
- Bu. – ele riu, olhando em volta. – Já pensou?
- Faltou à aula sobre os dias da semana, foi? – falei e ele me olhou, confuso. – Você disse que eu tinha uma semana pra pensar. – sorri, irônica e ele concordou com a cabeça, levantando.
- Falou, nerd. – fez joinha e saiu da biblioteca. Eu ri baixo, sem chamar a atenção. Ele acha mesmo que eu vou pensar? Sonha, , sonha.
Sala de aula do Elite High School – 12h45min
Essa aula de literatura não acaba nunca! E o está no maior dos papos com uma loirinha que senta na minha frente, eu não consigo nem prestar atenção. Pior é que a única das meninas que está comigo nessa aula é a Sam, mas ela está sentada do outro lado da sala.
O sinal tocou e eu saí praticamente correndo. Finalmente! Estou morrendo de fome.
Saí quase correndo até o carro e (ainda bem!) já estava lá.
- Vamos, ? – ele disse, rodando a chave no indicador.
- Por favor! – quase implorei, eu estava morrendo de fome. se despediu dos caras e fomos embora. Assim que entramos no carro ele ligou o rádio e começou a tocar Taylor Swift, eu cantarolava balançando a cabeça no ritmo de Ours e riu da minha animação.
- Belo casaco. – ele disse e eu quase enfartei. Claro que perceberia, dã! Ele mora comigo, santa inteligência, impossível não notar que no caminho para a escola eu não tinha casaco nenhum e pimba!, na volta estava com um belo casaco azul marinho e o zíper fechado até onde conseguia.
- Eu... – minha mente trabalhava a mil, eu podia jurar que tinham fumacinhas saindo pelas minhas orelhas, de tão desesperada que eu estava para conseguir uma desculpa que fosse convincente. Se eu contasse que o casaco era de , daria um chilique do tipo “porque ele foi legal com você?” e pegaria no meu pé pro resto da vida. O motivo? No primeiro dia de aula, mencionei sem querer que tinha achado bonito e desde então me enche o saco com piadinhas a respeito. – comprei no sábado, quando fui ao shopping com , mas esqueci com ela. - Eu fui te buscar no shopping, como você pode ter esquecido na casa dela? – pobre , tão ingênuo! Eu já tinha pensado em uma resposta, quando quer minha mente trabalha com bastante rapidez.
- Eu não disse que esqueci na casa dela, disse que esqueci com ela. – respondi, triunfante e ele bufou, revirando os olhos de leve. – Ela comprou uma blusa na mesma loja em que eu comprei o casaco, por isso as duas peças ficaram na mesma sacola e...
- A sacola ficou com e ela te devolveu o casaco hoje. Saquei. – ele sorriu, olhando para mim quando paramos em um sinal fechado. É, quando quer meu primo é bem inteligente. Acho que ele puxou isso de mim... Ou não.

Quarto – 15h50min
Já tinha feito as tarefas da escola e cochilado por quase meia hora, fui acordada por risos escandalosamente altos vindos do jardim dos fundos da casa. Levantei, emburrada por ter sido atrapalhada em meu sono, e fui até a janela, abrindo a cortina. A cena com a qual me deparei me deixou sem ar por alguns segundos: , , e estavam na piscina e pareciam se divertir muito. e levantaram, indo até o bar para pegar o que eu presumi ser uma cerveja e não pude evitar encarar descaradamente o abdômen dos dois. Meu primo era ridiculamente lindo, assim como o convencido amigo dele. Bufei, sabendo que não conseguiria retornar ao meu lindo sono e sentei na cadeira giratória, ligando meu notebook e checando meu e-mail. Tinha um cujo endereço eu não conhecia, mas podia bem imaginar só pelo assunto.
De: hurricane@hotmail.com [hurricane@hotmail.com];
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Biologia
Vai me ajudar ou não? Estou ficando sem paciência.
.
De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [hurricane@hotmail.com]
Assunto: Res: Biologia
Tome um calmante, querido. Está muito estressado ultimamente.
Vê se me erra, não vou te ajudar coisa nenhuma. Vai atrás das suas amiguinhas, se bem que eu acho que aquelas ali mal sabem inglês, quem dirá biologia. Não que eu ligue para isso, quero mais que você se ferre; ainda mais agora que me acordou rindo feito uma hiena na piscina da minha própria casa, que por acaso fica bem perto da janela do meu quarto.
PS: Como você conseguiu meu endereço de e-mail?
.
De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Junie
! As meninas já confirmaram, só falta você: vamos à festa da Junie no sábado? Por favooooor!
Você nunca foi a nenhuma festa com a gente, amiga. Vamos nessa, please? A banda do seu primo vai tocar lá, não custa nada aparecer!
Vamos? Por favor!
Precisamos de você, mimimi. :/
.
De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [whatthehell@hotmail.com]
Assunto: NÃO
Desculpa gatona, mas não vai rolar.
Acho ótimo que o tal MacYai toque, fico feliz pelo – e só por ele -, mas minha ilustre presença não será possível, infelizmente.
E que papo é esse de precisarem de mim? Que bobagem, . Vocês sempre vão às festas sem mim e eu nunca reclamei, e não estou disposta a mudar esse fato. Desculpa mesmo, mas não estou a fim de ir.

.
Saí do computador e troquei de roupa, tirando aquele short curto e a blusa de alcinha, para colocar uma calça de malha – minha amada preta, amo tanto – e uma blusa dos Strokes bem larga – que era de , mas perdeu, playboy! agora é minha. Troquei porque estava com fome e ia descer para comer algo, e eu não faria isso nem morta com meus trajes anteriores. Acho que ninguém naquele colégio já tinha me visto de short, saia ou vestido, nem mesmo as meninas. Só , mas enfim, ele era meu primo e morava comigo.
Desci de três em três degraus – não entendo como não quebrei uma perna até hoje descendo essa escada, mas enfim – e fui quase correndo para a cozinha. Cheguei lá e cortei um enorme pedaço de um bolo de chocolate, comendo-o inteiro na mesma hora. Terminando de comer, fui até a geladeira e enchi um copo de Coca, indo ao jardim dos fundos e sentando em uma das cadeiras que tinham lá perto da piscina. Os quatro estavam de baixo d’água, acredito que fazendo aquelas competições idiotas de quem aguenta mais tempo e eu ri, tentando adivinhar quem ganharia. Nem tive tempo de pensar, já que no mesmo segundo levantou, chacoalhando a cabeça e atirando água para todo lado, começando a rir em seguida. foi o próximo, e repetiu o que tinha feito. e levantaram quase igualmente e começaram a rir sem motivo algum, ou isso era o que eu achava.
Quem percebeu minha presença foi , que deu um enorme sorriso e gritou meu nome, fazendo os outros três olharem para mim.
- E aí. – sorri, fazendo joinha e me olhou indignado.
- Essa camisa é minha!
- Não é mais. – mandei beijinho para ele, fazendo os outros três rirem. Dei um gole em minha Coca.
- Isso é Coca? – ouvi perguntar.
- Não, petróleo. – sorri irônica e ele me deu língua. Dei tchauzinho para eles e entrei, indo para a sala de TV. Sim, na minha casa tem uma sala de TV. Não sou rica, mas tenho bastante dinheiro. A sala de TV é separada da sala da entrada da casa e é caracterizada por ter vários sofás e um telão enorme. As meninas adoram e já fizemos várias “festas do pijama” aqui. De qualquer forma, coloquei Amanhecer – Parte 1 no DVD, liguei a TV e me atirei em um dos sofás, dando play no filme. Preferia os livros aos filmes da saga Crepúsculo, mas eu estava em profundo tédio e esse era o DVD mais próximo.
Depois dos primeiros minutos, já estava totalmente entretida no filme e só faltei suspirar quando Robert Pattinson falou português... Está aí uma língua que eu quero aprender um dia. Mas só quando eu estiver muito desocupada, o que não é o caso.
Um barulho ao meu lado me assustou, dei um pulo e ouvi gargalhar.
- Desgraça, não te ouvi entrar. – ri um pouco também, ainda com o coração acelerado por culpa do susto.
- Você ficou pálida, achou que fosse quem, o Fantasma da Ópera? – ele gargalhou mais ainda.
- Engraçadinho. – zombei, ainda pensando em como eu não tinha escutado ele entrar.
- Você não fechou a porta, senhorita esperta. – ele disse, como se adivinhasse meus pensamentos e eu me assustei novamente, fazendo-o gargalhar. Fechei a cara e voltei a prestar atenção no filme, não falou mais nada.
- Por que ela vai beber sangue? Eca. – ele exclamou depois de um tempo, me fazendo rir.
- Por causa da criança.
- Não era pra ela comer comidas com nutrientes ou coisa parecida?
- A criança é filha do Edward também, por isso é meio vampira. E a metade vampira dela precisa de sangue e a maneira mais fácil e menos dolorosa de dar esse sangue a ela é fazendo a Bella toma-lo. Sacou?
- Uhum. – murmurou, parecendo entediado, e logo entrou na sala, seguido por e . Os três sentaram no sofá também, no meu lado esquerdo e no direito.
- Não acredito que vocês estão vendo isso. – bufou. – Posso trocar, ?
- Fique a vontade. – ri e ele foi lá, colocando Star Wars. Eu até gostava do filme, mas não estava com a menor paciência de assistir. Subi para o meu quarto e peguei o livro Querido John, recomeçando a leitura pela quinta vez.


Capítulo 02.






Alguma rua no centro de Londres – 17h40min
Minha corrida diária hoje acontecia ao som de Foo Fighters. Eu já corria há vinte minutos e estava toda suada e necessitando de água, mas tinha esquecido minha garrafinha. Dei a volta na quadra e retornei o caminho para casa, mas no meio dele não resisti e entrei no mercadinho para comprar uma água.
- Olá, . – Sid sorriu, quando cheguei ao caixa. Ele é o dono do mercadinho, mas mesmo assim trabalha direto no caixa.
- Oi Sid. – sorri também, dando o dinheiro a ele e saindo, dando um enorme gole na minha água. Eu estava mesmo precisando daquilo. Comecei a correr, mudando a música.
- Nem pra correr você abandona essas calças? – ouvi uma voz ao meu lado e tirei os fones, encarando .
- Me erra, garoto. – revirei os olhos e o ouvi rir, acelerei o passo, virando em uma esquina e indo pelo caminho mais longo, só para não correr o risco de encontrar novamente. Garoto mais irritante, eu hein.
Entrei em casa e encontrei e conversando no sofá, os dois estavam bem sérios e me encararam assim que cheguei.
- Que foi gente? – eu ri, confusa e eles se encararam. – Algum problema?
- Sim, mas a gente resolve, nem esquenta. – falou, suspirando e deu um tapa nele. – AI.
- Pede pra ela. – ele murmurou, mas mesmo assim eu ouvi.
- Pedir o que? – perguntei, mas balançou a cabeça negativamente. Dei de ombros e subi as escadas, tomando um longo e quente banho.
Depois de meia hora saí de lá, encontrando minha mãe sentada na cama, com uma caixa no colo que eu sabia muito bem o que era. Ah, não, já? Mas hoje ainda é segunda, mommy! Que coisa.
- Ah, não! Fala sério, mãe. – bufei, colocando um pijama e me jogando na cama. Deixe-me explicar: minha mãe é obcecada com o fato de eu não ter um namorado. Por isso, ela vive me levando em festas e me apresentando pra vários caras, o que é extremamente chato. Já tentei de tudo para fazê-la parar com isso, mas nada adianta.
- Sim senhora. Vamos. – deu dois tapinhas em minha perna e levantou, colocando a caixa ao meu lado. – Você tem trinta minutos. Não me faça vir aqui te buscar. – minha mãezinha carinhosa me ameaçou novamente e saiu, fechando a porta. Bufei e fui até o notebook, ligando-o e checando meus e-mails.
De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Deixa de ser chata
Qual é! Uma festinha, não faz mal pra ninguém, ! Mas tudo bem, não vou insistir.
Ah, o nome da banda é McFly, não MacSeiláoque que você inventou. E eles são realmente bons, baixei umas músicas ontem, se quiser eu te passo.
E ai? O que me conta de novo?
Perdi meu celular, nem adianta me ligar. Te mando o número novo assim que meu pai chegar com o chip.
Beijo na bunda. :*

.
De: [hurricane@hotmail.com];
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: (Sem Assunto)
Você está certa, minhas amiguinhas realmente não sabem muita coisa de biologia ou inglês, mas de outros assuntos elas entendem muito bem; se é que você me entende.
Não vai mesmo me ajudar? Você ainda tem tempo para refletir...
Quanto à piscina, desculpe por ter rido tão baixo, seria bom se você tivesse levado um susto maior ainda e caído da cama. O Youtube iria adorar isso. Não sei se conta, mas eu não era o único rindo, você me ama tanto que já reconhece minha risada? Uau.
PS: Não interessa como eu consegui. Quando eu quero algo, eu consigo. Fim da história.
PS²: Vou te dar mais três dias para pensar. Três dias. Reflita bem, você pode estar desperdiçando ótimas tardes em minha companhia.
.
De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [whatthehell@hotmail.com]
Assunto: Minha mãe
Adivinha para o que eu estou me arrumando?
Acertou. Mais um “encontro”. Minha mãe não cansa, . Ela não cansa! Eu não aguento mais isso, não aguento. Eu sou solteira e estou bem assim, por que é tão difícil pra ela entender isso? Se ela continuar insistindo nessa história de me empurrar pra cima de qualquer alma masculina que vê pela frente, não responderei mais por mim. Não ligo a mínima para o nome da banda, eles podem se chamar & Os Patetas e eu vou continuar não ligando.
PS: não para de encher meu saco para que eu o ajude em biologia, se ele continuar me incomodando teremos problemas, muitos problemas. E ele ainda manchou minha blusa dos Beatles com suco de morango, acredita? Esse idiota está me irritando, . E você sabe o que acontece quando eu me irrito.
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De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [hurricane@hotmail.com]
Assunto: Dá pra esquecer que eu existo?
É sério. Essa história já está me irritando.
Não, eu não conheço sua risada, mas tenho certeza que a mais ridícula dali era a sua.
Não vou te ajudar, até porque não quero nada em troca. E ajudar de graça eu não ajudo mesmo.
PS: E o Senhor Prepotência ataca novamente. Você não cansa não? As pessoas se irritam com gente que se acha, sabia? E você está realmente abusando da minha boa vontade. Quer fazer o favor de não me mandar mais e-mails?
PS²: Tardes em sua companhia só seriam ótimas se eu estivesse sentada em uma poltrona super confortável assistindo você ser devorado por tubarões. Essa sim seria uma tarde bem agradável.
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Desliguei o computador e abri a caixa, não me surpreendendo em encontrar ali mais um vestido. Não entendo esse pavor da minha mãe com relação a repetir roupas, sempre que vou sair com ela para esses encontros super agradáveis – não – ela me compra um vestido novo. E eu odeio usar vestidos. Todos que ela já me deu até hoje estão atirados em uma caixa e nunca serão usados por mim novamente.
Troquei de roupa automaticamente, colocando o sapato preto de salto que estava junto com o vestido e me olhando no espelho. Tirei os óculos e coloquei a lente de contato, penteando o cabelo. É, não estava tão ruim.
- Está pronta? – ouvi minha mãe dizer, enquanto batia na porta. Fui até lá e abri, sorrindo ironicamente. Ela sorriu também, sem parecer notar minha ironia. Virou as costas e foi para a escada, eu a segui (é bom evitar a Terceira Guerra Mundial de vez em quando, sabe como é).
Gallileo’s Buffet – 20h45min [n/a: nome totalmente inventado]
Eu já morria de tédio e implorava mentalmente para que minha mãe viesse e me levasse embora; estávamos na festa de uma empresa muito conhecida e o filho do dono – um engomadinho insuportável – tagarelava sem parar sobre as viagens que ele tinha feito com os pais para a Itália. Não me leve a mal, o garoto era bem bonito, mas ele era um pé no saco. Eita papinho mais inútil, Deus que me livre.
Concordei automaticamente com alguma coisa que ele falou; ouvindo somente algo como “mãe” e “colegas da imprensa”, imaginei que a mãe dele tinha o chamado, já que ele se afastou, sumindo de minha vista.
- Entediada? – ouvi uma voz atrás de mim e dei um pulo, assustada. Meu coração quase saiu pela boca, coloquei a mão no peito na falha tentativa de fazê-lo bater mais devagar. Virei-me lentamente, dando de cara com um homem muito bonito, que sorria sem graça. – Ops. Desculpe, não quis te assustar. Ben. – informou, estendendo a mão.
- . – foi tudo que consegui responder, colocando minha mão sobre a dele, que beijou-a delicadamente. Ele sentou ao meu lado.
- Meu irmão é muito chato? – apontou para o caminho por onde meu nada-querido acompanhante tinha acabado de sair.
- Um pouquinho. – confessei, rindo. – Mas eu já estou acostumada – dei de ombros. -, minha mãe adora me trazer para essas festas e me apresentar pra vários garotos, a maioria riquinhos insuportáveis, claro.
- Nossa, deve ser chato. – ele entortou o lábio, e eu concordei, sorrindo.
- Você não tem ideia. Não sei o que fazer pra ela parar com isso.
- Já tentou conversar? Sei lá, explicar pra ela que você não quer isso. – ele falou e eu o encarei, surpresa. Nunca tinha pensado dessa forma, por mais surpreendente que pareça. Eu só dizia a ela que não queria ir e pronto, não argumentava. E ela sempre conseguia me convencer.
- Boa ideia. – falei e ele riu.
- Benjamin? – ouvi uma voz feminina e olhei para o lado, dando de cara com uma cópia da Jennifer Aniston. A garota era linda, loira e alta. Provavelmente namorada de Ben. Ele se levantou e passou o braço pela cintura dela. Sim, definitivamente namorados.
- A gente se vê, . Boa sorte com a sua mãe. – ele disse, piscando para mim e sumindo da minha linha de visão. Vi minha mãe se aproximando e levantei automaticamente.
- Achou alguém interessante? – perguntou, animada, e eu segurei meus impulsos de revirar os olhos.
- Não. – fingi tristeza e ela suspirou.
- Tudo bem. Vamos?
- Sim. – sorri, já saindo antes que ela me obrigasse a me despedir de todos (tinham uns quinhentos convidados naquele lugar, dizer oi para metade deles quando cheguei já levou uma eternidade, não vou passar por isso de novo).
A viagem até em casa foi silenciosa, entrei e quando estava quase subindo as escadas minha mãe me chamou.
- Amanhã temos uma festa para ir, é aniversário do filho de um colega meu de trabalho, vão ter vários garotos da sua idade. – ela começou e eu bufei.
- Eu não vou.
- Ah, vai sim senhora.
- Não quero ir, mãe. Chega disso! Há dois anos você me leva incansavelmente nessas festas insuportáveis, tentando me arrumar um namorado. CHEGA! Eu não aguento mais. – desabafei de uma vez, e percebi em seu rosto uma expressão triste.
- Você vai sim! Já pensou se seu príncipe encantado está em uma dessas festas?
- Se ele não apareceu em dois anos, não é agora que vai aparecer, mãe. Chega. Eu cansei.
- Por que essa revolta, assim, de repente?
- A senhora sempre falou que gostava de honestidade, então, pela primeira vez, vou ser honesta: eu não gosto disso! Só porque todas as filhas dos seus amigos tem um namorado super fofo e educado não significa que EU também tenha que ter um!
- Por quê? – ela pareceu se revoltar. – Não custa nada procurar. Vai que você encontra? Você não tem um namorado, . TEM? – gritou, irritada.
- Tenho! – gritei, para acabar com a discussão e um silêncio completo se instalou na sala. Percebi naquele momento a merda que eu tinha feito. Mas agora não adiantava mais voltar atrás. Claro que eu não tinha um namorado, falei aquilo por impulso, já estava cansada de discutir. Um sorriso enorme apareceu no rosto de minha mãe e eu juro como vi seus olhos brilharem. Ela veio até mim e me abraçou.
- Jura, querida? Ah, que ótimo. Fico tão feliz por você! Tão feliz! – se afastou, colocando as mãos em meu rosto e depois me abraçando novamente. Eu deveria ter dito que era mentira, mas ela estava tão empolgada que eu não tive coragem. Apenas sorri, balançando a cabeça e afirmei que estava cansada e precisava dormir, subindo para o meu quarto.
Tranquei a porta e liguei o notebook. Tinham poucos e-mails.
De: [whatthehell@hotmail.com]
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: Calma
Por favor, gatona, mantenha a calma. O e a sua mãe não merecem conhecer a sua ira, tadinhos.
Como foi o “encontro”? Conte =)
Por que você não ajuda o ? Não custa nada! Você é boa em biologia, ! O que custa?
Te mandei meu novo número por mensagem de texto, olha aí seu celular.
.
De: [hurricane@hotmail.com];
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: (Sem Assunto)
Você é sempre estressada assim ou sou eu que te deixo desse jeito?
Você ainda tem três dias. Eu tenho muita paciência, vou esperar você se decidir, professora.
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De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [whatthehell@hotmail.com]
Assunto: Minha mãe
Foi um saco, como sempre. O cara era um mala, metido. Horrível... Quando chegamos em casa finalmente enfrentei minha mãe e disse pra ela que não queria mais ir a essas festas idiotas, acabei inventando que tinha namorado e você tinha que ver a cara que ela fez! Foi hilária. Acho que finalmente não vai mais me incomodar com esses encontros idiotas.
E, quanto ao , não vou ajudá-lo. Por que você está do lado dele mesmo? Não entendi.
.
De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [hurricane@hotmail.com]
Assunto: Eu só vou falar mais uma vez:
Não me enche. Cansei de você e da sua prepotência. Me irrite de novo que você vai ver só quem é a estressada.
Acho melhor esperar sentado, aluno. Já dei a minha resposta, mas se você quiser eu repito: NÃO.
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Desliguei o computador e me deitei, apagando imediatamente.
Casa dos – 07h10min
- Acorda, filha. – senti alguém me cutucar e depois me sacudir um pouco. Soltei um murmúrio inaudível e não me mexi. Senti meu lençol sendo puxado e caí com tudo no chão. Ainda tonta, apenas olhei para cima, encarando minha mãe sorridente. – Você está atrasada. Seu primo já foi. Eu te levo, mas tem que ser agora. Você tem cinco minutos. – concluiu, apontando para o relógio novinho que estava em minha cabeceira e saiu, fechando a porta. Bufei e conferi as hor... O QUÊ? Ai, meu Deus, eu estou muito atrasada! Corri para o armário, trocando de roupa e pondo o “uniforme” de sempre, a única diferença foi o all star: eu estava com o vermelho dessa vez. Na pressa não prendi o cabelo, só coloquei o óculos e desci correndo. Peguei um pacote de biscoitos na dispensa e uma garrafa de água, seguindo até o carro. Minha mãe já estava lá e aquele sorriso assustador continuava grudado no rosto dela. Eu estava começando a ficar com medo dessa felicidade toda, o que será que aconteceu para ela ficar assim?
- Você foi rápida. – falou, ainda sorrindo, e dando a partida no carro. Comecei a comer calmamente alguns biscoitos. – Então... – pigarreou. – Já falou com o seu namorado hoje?
- Que nam... – comecei, mas logo uma luzinha acendeu no meu cérebro. Noite passada, ah que merda! Ela comprou mesmo a história. Tenho muita sorte mesmo. – Ah, pois é. Já falei sim! – sorri falsamente, rezando para ela não perceber a minha ironia. Obviamente ela não percebeu. Comi o último biscoito do pacote e guardei na mochila a embalagem, para jogar no lixo depois. Bebi um pouco da água e deixei a garrafa no chão do carro.
- E quando você pretende me apresentar a ele? – perguntou com a maior naturalidade do mundo e eu quase enfartei ali mesmo. Apresentar? Ah, claro. Ia ser uma cena maravilhosa: “Mãe, esse aqui é o meu namorado... É... Eu sei. Ele é meio... Invisível.” Onde eu estava com a cabeça quando fui inventar que tinha um namorado, hein? Argh!
- Eu... Vou pensar. – respondi, forçando minha voz a permanecer firme. Minha mãe me olhou com a sobrancelha arqueada e eu já soube o que ela perguntaria a seguir. Comecei a formular uma resposta mentalmente.
- Por quê?
- Porque... Ainda estamos no começo... – “belo começo, hein!” uma voz na minha mente gritava, mas eu decidi por ignorá-la. – Não quero apressar as coisas.
- Ok. Você que sabe. – sorriu novamente, e eu precisei me segurar para não soltar um suspiro de alívio. O assunto estava encerrado, finalmente! Era só eu enrolar minha mãe com esse mesmo papo de “é muito cedo” por uma semana, aí me finjo de triste e digo que terminou o namoro. E pra não começar tudo de novo, me faço de garotinha sofredora. Isso! Genial!
Chegamos ao colégio e eu me despedi de minha mãe rapidamente, tentando evitar que o assunto “namorado” viesse à tona mais uma vez. Fui quase correndo até as meninas e gargalhou ao ver a minha cara.
- Deixe-me adivinhar: sua mãe quer conhecer o Sr. Inexistente. – falou com voz de filósofa e apontando o indicador para mim. Apenas concordei com a cabeça, fazendo uma careta. Sam e Dani estavam com a expressão inalterada, obviamente não entendendo nada. Expliquei rapidamente o acontecido para elas, que riram, e eu procurava por ; ainda não tinha o visto essa manhã. Achei-o num banco no outro lado do pátio, conversando com , e . Os quatro tinham expressões sérias e nenhum notou o meu olhar. Nota mental: Perguntar o motivo da conversa ao depois.
Finalizei a história para as meninas, contando brevemente o quanto estava me irritando. As duas ficaram ao lado de e disseram para eu ajudá-lo, apesar de eu não saber o motivo. Só achei muito estranho.

Capítulo 03.





Sala do Elite High School – 10h05min
Saí da sala alguns minutos depois de bater o intervalo, pois eu não tinha conseguido copiar tudo que estava no quadro e a querida professora fez o favor de avisar que cairia na prova, portanto tive que ficar. Quando finalmente terminei, vi que já tinham passado cinco minutos. Que ótimo!
Peguei minha barrinha de cereal na mochila e devorei-a no caminho até o banco onde sempre sentava com as meninas. Chegando lá, vi que o banco estava sendo ocupado por duas pessoas que eu não conhecia. Ué, onde elas estavam? Dei uma volta pelo local, mas não as vi.
Como eu bem sabia que tinha uma queda por , resolvi seguir até o outro lado do pátio e perguntar se ele sabia de alguma coisa. Antes de ir até lá, dei meia volta e fui até a cantina, pegando um milk-shake de chocolate de tamanho médio. Segui calmamente até a mesa onde eles geralmente ficavam e percebi que, quanto mais perto eu chegava, mais aumentavam os cochichos ao meu redor. Que merda estava acontecendo? Quando cheguei relativamente perto deles, eu parei. Entendi de imediato o que estava acontecendo e não culpava os fofoqueiros ao meu redor.
, Sam e Dani estavam lá, sentadas com e seus amigos. sentava ao lado de e conversava animadamente com ele, já Dani e Sam estavam com e , respectivamente. quase engolia uma líder de torcida que usava uma saia que mais parecia uma calcinha e eu controlei a minha vontade de jogar meu milk-shake na cara deles para parar com aquela pouca vergonha. Isso ainda é um colégio, pelo amor de Deus! Quem ele pensa que é? Essa cena é no mínimo nojenta. Respirei fundo, finalmente sentindo minhas pernas de novo, e andei até eles a passos firmes. Quando cheguei bem perto, todos pararam para me olhar; inclusive e a put... Quer dizer, garota. O único espaço livre era ao lado de e sua acompanhante, e como eu sentia o olhar do colégio inteiro sobre mim, não tive muita escolha a não ser sentar. Resolvi colocar um sorriso no rosto para afastar os olhares curiosos e realmente, olhei pelo canto do olho e percebi que uma quantidade considerável de pessoas tinha parado de olhar para a mesa.
- Mas que porra é essa? Vocês piraram? – perguntei baixinho, me inclinando sobre a mesa e ainda mantendo o sorriso no rosto, para no caso de alguém ainda estar esperando um barraco de minha parte. Ninguém daquele colégio acreditava na minha sanidade mental, por eu andar com , Dani e Sam, que, sejamos honestos, são bem arrumadinhas. Elas usam saias, colares e coisas do gênero. De verdade, ninguém entende o motivo de elas andarem comigo já que, por fora, somos tão diferentes. Não que eu ligue pra isso. Estou só falando, sabe como é.
- Que foi? Não era você mesma que sempre reclamava da gente mal falar com as suas amigas? Então! – começou, mas eu bufei, balançando a cabeça.
- Tudo bem, mas assim, do nada? De uma hora pra outra vocês viraram amiguinhos? Tem alguma coisa rolando que eu ainda não sei? – perguntei, serrando os olhos e olhando para . Eu conhecia-a bem o suficiente para saber quando ela mentia, portanto queria que ela mesma me respondesse.
- Vamos conversar? – falou, acenando com a cabeça para um lugar reservado e eu concordei, levantando. Estranhei vir junto, mas não comentei nada. Chegando lá apenas cruzei os braços, esperando que algum dos dois falasse. foi quem começou. – Primeiro: Ninguém está te escondendo nada, ok? Foi uma situação de emergência que a gente precisou se reunir pra conversar. Não teve jeito. – começou, mas não disse mais nada.
- Vai continuar ou quer que eu adivinhe? – perguntei, começando a me irritar e ela olhou para . Ele deu de ombros e ela bufou, dando um tapa nele.
- Lembra que no mês passado a gente teve aquele trabalho monstro de trigonometria pra fazer? – começou e eu logo me toquei. Sabia muito bem do que ela estava falando. Foi uma das poucas vezes em que nos juntamos com os “caras” para fazer algo. Tínhamos um trabalho terrível de trigonometria para fazer no dia seguinte, mas até mesmo eu não tinha feito nada e estava super difícil. Era um domingo à tarde e só quem estava no colégio eram as faxineiras e a bibliotecária. Todos nos reunimos lá em casa e decidimos ir até o colégio para pegar no armário do professor um livro de onde ele tinha tirado todas aquelas questões. Nós não sabíamos que livro era, mas sabíamos que era um só, e se fossemos procurar o livro na biblioteca levaríamos o dia inteiro e era capaz de não ter lá as respostas. Não tínhamos tanto tempo.
Eu sei, é feio. Mas eu realmente não tinha escolha, não iria arriscar tirar um zero. Enfim, fizemos um sorteio e decidimos que quem entraria na sala para ver o nome do livro seria eu e , e nós mandaríamos por mensagem o nome do livro para e na biblioteca, eles olhariam e confirmariam se tinham as respostas lá e, em caso afirmativo, eu e sairíamos como se nada tivesse acontecido. Se não tivesse, teríamos que copiar manualmente ou tirar fotos, mas isso levaria mais tempo. Esse dia não é exatamente um dia do qual eu goste de lembrar...
# Flashback
Entramos na sala silenciosamente, mesmo sabendo que as únicas almas vivas naquele colégio eram a bibliotecária e alguma faxineira; Não valia a pena arriscar.
Assim que fechou a porta, uma onda de adrenalina correu pelo meu corpo e eu senti vontade de sair correndo e parar com aquilo. Não era típico de mim fazer algo assim, mas o trabalho era realmente difícil. Mas difícil ou não, o fato é que eu me sentia envergonhada por estar fazendo algo assim. Dei alguns passos para frente e percebi que durante o final de semana os armários dos professores eram esvaziados e abertos, para serem limpos. O cheiro de limpeza informava que as faxineiras tinham passado por ali recentemente e tinham colocado as coisas de volta nos armários, porém deixaram suas portas abertas, talvez para secar o que quer que elas tenham posto lá dentro. Isso significava duas coisas: Um – Eu só precisaria olhar para dentro do armário e já conseguiria o nome do livro; Dois – As faxineiras poderiam voltar a qualquer momento. Imediatamente peguei o celular e enviei uma mensagem para , que esperava fora do colégio: “Estamos aqui, mas em alerta. Fica por perto da porta, só por precaução”. pareceu chegar à mesma conclusão que eu, já que deu alguns passos, inclinou a cabeça e sorriu, pegando o celular e digitando algo.
- Nome enviado. Agora é só esperar. – cruzou os braços e ficou apenas me olhando, sem dizer nada. Senti-me um pouco desconfortável, mas achei melhor ficar quieta. Vamos, ! Ande logo com isso!
Finalmente, o celular de tocou e ele balançou a cabeça afirmativamente, tornando a olhar para mim. Apenas assenti, em silêncio. Tinha tudo dado certo, uau! Seguimos em direção à porta, mas ao chegar perto dela, vi que a maçaneta estava sendo virada. Ah, merda.
Parei imediatamente e bateu em mim pelas costas, não estava esperando a pausa repentina. Ficamos em silêncio, observando o movimento dela; o único barulho era de ambas as respirações.
Até que parou.
- Dona Gretch! Quanto tempo! – ouvi a voz de e soltei o ar pesadamente, relaxando. Foi por pouco.
- Olá, ! Tempo? Vimos-nos sexta! – ela riu e foi então que eu percebi que, no susto, tinha agarrado a mão de inconscientemente. Não soltei, porém. Ter sua mão contra a minha estava me acalmando; eu estava à beira de um ataque de nervos naquele momento, portanto não pensava claramente. A maçaneta começou a ser virada novamente, mas parou. – O que tem aqui dentro, ?
- Ué, não sei. – ele falou e eu gelei. Percebi que tinha apertado a minha cintura. Eu pediria para ele soltá-la, mas estava nervosa demais naquele momento. E se fôssemos pegos? Eu seria expulsa. Minha mãe nunca me perdoaria, ela acha que eu sou uma ótima aluna. E eu sou mesmo, hoje é o primeiro dia que eu faço algo errado. Ou quase isso.
- Dona Gretch! – ouvi a voz eufórica de Sam e coloquei minha mão sobre a mão de , que segurava minha cintura. Eu conseguia ouvir meus batimentos, de tão rápidos que estavam, e a respiração de roçava em minha orelha; ele também estava ciente do perigo que corríamos. Minha vida nesse colégio estava por um fio. – Danielle passou mal lá no ginásio, a senhora vai precisar... Limpar uma coisinha. Por favor, venha rápido! – continuou, cada vez parecendo mais eufórica e incrivelmente convincente, até eu acreditava minimamente naquilo. Ouvi passos e esperei.
Foram dadas duas batidinhas na porta.
- Tudo limpo. Saiam pela direita, nos encontramos em casa. – ouvi a voz de , seguida por mais passos e então o silêncio.
Estávamos salvos!
Soltei o ar que segurava e sorri, incapaz de esboçar qualquer outra reação. No calor do momento, me virei e abracei , que incrivelmente retribui o abraço. Depois daquela inédita demonstração de afeto, saímos pela direita controlando o passo para não levantar suspeitas.
# Fim do Flashback
Esse foi o dia mais estranho da minha vida. Fora o único dia em que eu havia abraçado e, depois dali, fingimos que nada tinha acontecido e a implicância mútua só triplicou. Nunca tinha contado a ninguém sobre o contato que ocorrera naquele dia, até porque eu tinha parado para refletir sobre aquilo e não tinha gostado nada do resultado.
A verdade é que eu tinha gostado de ter assim tão perto, mesmo gritando para mim mesma que era mentira. Eu havia gostado, sim. Não adiantava negar isso. Ele era bem atraente. E era realmente legal quando estava só com os amigos, sem nenhuma garota por perto. É, eu sei o que você está pensando. É feio sim ouvir por detrás da porta, mas eu estava entediada, poxa! Mas quando não estava só com os amigos, ele era um completo tapado. Além de tratar as mulheres como objeto. Achava-o um idiota.
- Lembro sim, e daí? – respondi, temendo o que ela ia dizer a seguir.
- Sabe a Dona Gretch? Foi demitida. E abriu a boca sobre todos os podres de todos os alunos. Claro que ela mencionou a tentativa de de impedi-la de entrar naquela sala. – disse e eu gelei. Sinto que não vou gostar do que ela vai dizer a seguir. – E o diretor chamou o na sala dele e procurou nas câmeras do dia do ocorrido, viu você e dentro da sala. pediu para me chamarem antes de se explicar para o diretor. Fui lá e vi as imagens junto com ele. O diretor pediu uma explicação e nós inventamos a maior mentira do universo. – suspirou, colocando as mãos em meus ombros. – Por favor, não me mate, ok? Inventei aquilo só pro seu bem.
- Fale logo, . – falei, séria e ela assentiu.
- Enfim, o que dissemos foi: Você e namoravam – abri a boca com o que ela disse. Como é que é? - e tinham brigado. Não queriam se falar de jeito nenhum. Então nós, melhores amigos inseparáveis, armamos para colocar vocês dois na mesma sala e obrigá-los a conversar e se acertar porque nós...
- Sabíamos que vocês dois tinham sido feitos um para o outro e não aguentávamos vê-los separados. – completou, com voz afeminada e eu não consegui rir, de tão perplexa que estava. Tive medo do que ouviria a seguir.
- O ponto é: ele não comprou a nossa história ainda. Fez um monte de perguntas, inclusive se você e ele ainda estavam juntos, já que pelo que é visto nas imagens vocês obviamente tinham feito as pazes naquele dia. – estreitou os olhos para mim e eu me senti um pouco culpada por não ter contado a ela. – Dissemos que sim, senão ele teria certeza de que é mentira. Então, por enquanto, nós teremos que agir como melhores amigos e você e como um casal. Pra escola inteira.
- E o falou que só faria isso se você aceitasse o ajudar em biologia. Não temos escolha, . Você vai precisar ajudá-lo. – completou e eu abri a boca, sem acreditar.
- Não creio que vocês fizeram isso. E além do mais, eu já disse ao que não iria ajudá-lo. – concluí, cruzando os braços, ainda sem acreditar que aquilo estava acontecendo.
- Você vai precisar pedir a ele, então.
- Nem morta faço isso, .
- Vai arriscar ser expulsa? Porque se o diretor não comprar a nossa história, ele vai ligar os pontos mais cedo ou mais tarde. Você sabe disso. E caso isso aconteça, bye bye faculdade. – falou e eu bufei com raiva. Sabia que ela estava certa. Estava arrependida de ter feito aquilo, mas não tinha mais como voltar atrás. E eu ainda precisaria pedir algo ao , que maravilha. Revirei os olhos, me virando e indo a passos firmes em direção à mesa, sem me importar em como e interpretariam a minha falta de resposta. No fundo eles sabiam o que eu faria. Eu não tinha escolha. Controlei minha raiva, vendo que ainda se divertia com a estúpida garota. Sentei ao seu lado novamente, mexendo meu milk-shake e tomando mais alguns goles. Cutuquei ele rudemente no ombro, e ambos me olharam; a garota me fuzilava, mas não me preocupei em desviar meu olhar para ela.
- Posso falar com você? – disse para ele, que apenas concordou com um meio sorriso. Levantei e saí andando, sem olhar para trás. Quando estava no meio do pátio parei e me virei, só para conferir se a falsificada tinha vindo junto. Claro que tinha. Que dúvida. Virei a cabeça levemente para ela, com a expressão entediada.
- Em particular. – falei enfaticamente e ela não se mexeu, apenas me encarou, agora com mais raiva ainda.
- O que é que você quer de tão importante, nerd? – perguntou, só que diferentemente de , e , seu tom de voz quando disse a última palavra era de puro nojo, mesclado com uma superioridade que me irritou mais do que qualquer coisa. Já chega. Agora o projeto de Barbie vai ter o que merece. Arqueei as sobrancelhas, permitindo que surgisse em meus lábios um sorriso irônico. Tirei a tampa do milk-shake que eu ainda segurava e derramei todo o seu conteúdo dentro da blusa da garota. Seu decote era tão grande que rapidamente ela estava toda melecada, até a barriga. Ela deu um grito agudo e começou a abanar o local, mexendo as pernas freneticamente. Eu ouvia o barulho de seus pés batendo contra o chão claramente, já que agora a escola inteira estava instalada num profundo silêncio; todos presenciavam a cena, com os olhos vidrados. Consigo até imaginar a cara de olhando para nós.
- Pra você é . – falei baixinho, mas mesmo assim tive a certeza de que todo mundo ouviu. Virei e comecei a marchar até a biblioteca, ouvindo as risadas atrás de mim irem diminuindo aos poucos. Sabia que tinha pouco tempo restante de intervalo, então passava meus olhos pelas estantes sem muito interesse, apenas para minha raiva diminuir. Funcionou, em pouquíssimos segundos eu já estava perfeitamente calma. Olhei para o lado rapidamente e encontrei me olhando, com um sorriso cínico nos lábios.
- Que foi? – perguntei, voltando a encarar a estante. O ouvi rir, e distingui seus passos, percebendo que agora ele estava bem perto.
- Que foi? - ele repetiu, rindo mais uma vez. Seu riso foi um pouco alto, já que algumas pessoas próximas nos mandaram fazer silêncio. Ele se aproximou mais. – Era você quem queria falar comigo, professora. – sussurrou contra a minha nuca e senti meus pelos se arrepiarem. Eu sabia o que tinha que fazer, mas não tinha ideia de como começar. Tentei manter meu orgulho adormecido, enquanto pensava nas palavras certas. Se é que tinham palavras certas. Abri a boca para falar, mas nesse momento meu telefone tocou, alertando mensagem. Virei de frente para para que ele não pudesse lê-la e tentei não demonstrar meu pânico ao fazê-lo. Era de minha mãe:
”Oi filha! Queria te avisar que eu organizei um jantar para sexta-feira lá em casa. Você vai estar lá para me apresentar seu namorado, não é? Beijinhos.”
Que ótimo. Agora eu realmente não tinha escolha.
Notei o olhar de sobre mim e suspirei, tomando coragem para falar.
- Você sabe que nós temos um problema... – ele apenas continuou me olhando. – E eu sei que você só irá colaborar se eu o ajudar em biologia. – dessa vez ele balançou a cabeça quase que imperceptivelmente. – Eu tenho três condições. – comecei e ele arqueou a sobrancelha num tom divertido, cruzando os braços na altura do peito. – A primeira: você vai me explicar direitinho porque raios você e os meninos andam tão estranhos. Segunda: vocês não vão esconder mais nada de mim. Não gostei mesmo de descobrir essa palhaçada toda só agora. Se você souber de algo que eu não sei e tem a ver comigo, vai me contar. – eu contava nos dedos, os mesmos na frente de seu rosto, e antes de falar a última condição, esperei para ver sua reação às duas anteriores. Ele apenas continuou me encarando. - Terceira: você vai agir como meu namorado. E não somente na escola. – finalizei, abaixando a mão, e ele me olhou com uma expressão incrédula e deixou os braços caírem ao lado de seu corpo.
- Você quer que a gente namore... Tipo pra valer? – perguntou, sussurrando e com os olhos arregalados. Não consegui segurar uma risada.
- Não! – ri mais uma vez, balançando a cabeça negativamente. Que ideia! - Quis dizer apenas que, quando estivermos perto da minha mãe, você também vai agir como se fosse meu namorado. Só isso. – expliquei e a expressão dele se suavizou um pouco, ele parecia avaliar o assunto.
- Nesse caso... Eu também tenho uma condição. – ele tinha um sorriso um pouco pervertido no rosto e eu cruzei os braços, sentindo um sorriso curioso se formar em meus lábios.
- Jura? E qual seria ela? – perguntei e ele deu um passo à frente, fazendo nossos narizes roçarem um no outro suavemente.
- Nada de beijos técnicos.

Capítulo 04.



Casa dos – 16h35min

Largo a caneta na mesa, com raiva, e observo enquanto ela cai no chão, fazendo um singelo barulho. Há alguns minutos peguei meu caderno, com o objetivo de responder de uma vez o questionário de literatura para ficar livre no final de semana, mas não consegui passar da primeira pergunta. E não é porque eu não sabia, na verdade eu conhecia a resposta; o único problema era, de fato, escrevê-la, pois sempre que a caneta tocava o papel, a resposta se esvaia de minha mente, dando lugar a um só pensamento:
A partir de amanhã passarei a agir como namorada de .

Somente agora parei para refletir realmente o que isso significa. E, sinceramente, a ideia me apavora. Onde eu estava com a cabeça quando fui aceitar aquele acordo? E eu não estava me importando muito com o que as pessoas pensariam da novidade - mas, se pararmos para refletir, acredito que o novo "casal" vai causar uma fofoca daquelas; aposto que, assim que uma das patricinhas souber, em menos de um minuto o colégio inteiro saberá da novidade. -, e sim com como eu agiria. A verdade é que, pasmem: eu só tive um namorado em toda a minha vida. Sim, somente um. Por isso não tenho a menor ideia de como agir, fazendo o papel de garotinha apaixonada. É capaz de eu pegar raiva de mim mesma. Não suporto casais melosos. E, se pararmos para pensar, eu odiava a mim mesma, dois anos atrás. Eu tinha quinze anos quando o conheci: Eric Lyon. Na época, ele tinha dezessete. Eu era uma típica patricinha: passava uma hora me arrumando para ir para a escola, usava uma saia minúscula, fazia academia, comia só comida saudável, me achava melhor do que todo mundo, além de ser aquelas riquinhas metidas que acham que mandam em tudo e em todos; agora entendo porque metade do colégio me odiava e a outra metade queria ser como eu.
Já Eric era o típico garoto popular: lindo, causava suspiros em todas as meninas e fazia parte do time de futebol. Conhecemo-nos na festa dada por um amigo em comum, na qual ele convidou quase toda a escola. Foi uma festa bombástica, em uma casa enorme e arrisco dizer que foi uma das festas em que mais dancei. Foi também a primeira vez que experimentei uma bebida alcoólica, mas é melhor não comentarmos sobre isso. Ele chegou perguntando meu nome e começamos a conversar sobre coisas diversas das quais não me recordo agora. Sei que, naquela noite, não permiti que ele me beijasse; não que ele tenha percebido, fui bem discreta ao desviar o rosto. Eu já tinha uma queda por ele desde antes de conhecê-lo. Obviamente, quem não tinha? Todas as garotas daquele colégio eram malucas por ele; eu não fugia à regra. Na época eu já tinha boa parte do orgulho que tenho hoje e não queria ser só mais uma para ele. Por isso, continuei puxando assunto, mas sem permitir um contato maior. Fingi não perceber que ele ficou frustrado por não conseguir nada de mim, e fui embora da festa começando a me sentir arrependida; Será que eu não deveria ter deixado?
No dia seguinte deduzi que não, pois Eric começou a falar comigo e era um fofo. Com o tempo, minha paixão por ele aumentou e aceitei o convite dele para jantar, aceitando em seguida seu pedido de namoro. Quanto tempo durou? Quatro meses.
No dia em que íamos completar quatro meses juntos, resolvi fazer uma surpresa e ir até sua casa; ele estava nos fundos conversando com um amigo e não me viu, eu ia me aproximar, mas percebi que falavam de mim. Escondi-me para escutar a conversa e me assustei: Eric olhava para o amigo com os olhos arregalados e depois gargalhou, dizendo: "Apaixonado? Está maluco? Que tipo de idiota se apaixona? Estou só curtindo, a garota é bonita e rica, o que mais eu podia querer? Mas não é nada demais, deixe de ser ridículo" e riu novamente. Permaneci por alguns minutos fincada no lugar, sem coragem de me mexer, mas depois de um tempo finalmente voltei a mim e tomei o caminho de volta para casa em velocidade recorde.
Naquele dia mesmo, fiquei sabendo que nos mudaríamos e aquilo não poderia vir em hora melhor; aproveitei a mudança de cidade para mudar mim mesma: joguei fora as roupas caras e a maquiagem, e adotei as roupas que uso hoje. Prometi para mim mesma que, se fosse para alguém se apaixonar por mim, que se apaixonasse por quem sou e não pelo que visto.
Eu não tinha a mais vaga ideia de como agir perto de , já que precisaríamos fingir estar loucamente apaixonados e, definitivamente, precisaríamos demonstrar isso. Espero que ele saiba o que está fazendo, pois eu realmente não sei. Com Eric, eu agia feito uma idiota e não estou disposta a agir dessa forma novamente; muito menos com alguém tão irritante. Portanto, estava no escuro. Eu deveria ficar abraçada com ele o tempo inteiro? Com as mãos entrelaçadas? Andando pra lá e pra cá como se fossemos um só? Veremos quanto tempo eu suporto isso, veremos.
Liguei o computador para checar meu e-mail, tinha apenas um, de .
De: [hurricane@hotmail.com];
Para: [not-cinderella@hotmail.com]
Assunto: O que você quer saber
Como eu geralmente cumpro com a minha palavra, vou levar a sério nosso acordo e espero que você faça o mesmo.
Você tinha perguntado o que estava acontecendo comigo e com os caras, pois bem... Na verdade, não é nada extremamente interessante, considerando que o problema já foi resolvido, mas você perguntou. Você sabe que eu, , e formamos uma banda chamada McFLY. Então, nós fomos convidados para abrir o show do Foo Fighters em Los Angeles. Incrível, não é? =)
O problema era que, devido às minhas notas terríveis em biologia, minha mãe tinha me proibido de viajar. É, pode rir.
Mas como você e eu temos um acordo, agora tudo está resolvido, pois vou poder viajar tranquilamente sem ser um fora da lei. Legal.
Só uma coisa: não conte ao que você sabe sobre o show, ele queria te fazer uma super surpresa e eu não quero estragar tudo. Estou te contando porque foi esse o combinado, mas espero que você colabore comigo e mantenha em segredo o que eu te contei. PS: Será que você podia se tornar um pouco mais sociável? É difícil fingir que gosto de uma garota tão irritante como você, tente melhorar.
.
De: [not-cinderella@hotmail.com]
Para: [hurricane@hotmail.com]
Assunto: RES: O que você quer saber
É óbvio que eu levarei a sério nosso acordo e aprecio o fato de você ter sido tão rápido em cumprir parte dele.
Não se preocupe, não vou contar ao , sei como ele gosta de surpreender as pessoas.
PS: Não gosta do meu jeito de ser? Foda-se. Não tenho nada com isso. Se quer acabar com essa palhaçada, fale com a e com o e se entenda com eles. Você estaria me fazendo um imenso favor.
.
Depois de enviado o e-mail, desliguei o computador. Estava muito feliz por ; já imaginou que incrível? Ele deve estar pulando de alegria.
- ? – ouço a voz do dito cujo e me viro para vê-lo, encostado na porta, com uma expressão séria.
- Aconteceu alguma coisa? – pergunto, preocupada. Ele pressiona os lábios e entra no quarto, fechando a porta e sentando em minha cama. Deslizo a cadeira até lá e paro de frente para ele. Espero em silêncio, até que ele finalmente se pronuncia.
- É que... – ele pigarreou, esfregando as mãos. – Eu queria te contar uma coisa, mas não tenho muita certeza de como você vai reagir. – começa e eu imediatamente imagino que ele vá falar do show. Preparo o meu melhor sorriso e meu discurso de congratulações, quando algo em meu peito me alerta para o fato de ele não estar sorrindo. Em sua face, uma expressão preocupada. Será que aconteceu algo grave? Provavelmente não é tão grave assim, senão teria falado de uma vez; o conheço bem. O que poderia ser então?
- Fale logo, . – resmungo, impaciente, e ele dá um breve riso.
- Mas, primeiro, você vai ter que prometer que vai ser completamente sincera sobre a sua opinião nesse caso e, se for contra, vai me falar na mesma hora. Entendeu?
- Por quê? Do que você está falando?
- Entendeu, ? Sinceridade total. – pergunta de novo, ainda sério e eu concordo com a cabeça. Começo a me preparar para o pior, quando percebo algo diferente em seu olhar, uma espécie de brilho. Meu cérebro processa a informação ao mesmo tempo em que as palavras saem de seus lábios. - Estou gostando da . Pra valer.
- Uau. – é a única coisa que consigo pronunciar e ele abaixa o olhar.
- É, eu imaginei que fosse dizer isso. Sei que ela é sua melhor amiga e entendo que não queira...
- Não. – o interrompo e ele me olha, curioso.
- Não o que?
- Não é isso. – falo, simplesmente, e tento processar a informação. apaixonado por . Não consigo conter meu sorriso de felicidade e percebo sua expressão se suavizando. e ! Será que é possível? Não sei se ela sente algo por ele, a ideia nunca passou por minha cabeça, mas começarei a prestar mais atenção nisso. – Eu apoio completamente. Sério! Por que você não me falou antes? – rio, dando um leve tapa em seu ombro e ele dá um largo sorriso, me puxando para o seu colo.
- Eu achei que você não fosse querer, sei lá. É sua melhor amiga.
- É. E você meu melhor amigo. Quer casal mais perfeito? Vai fundo, , a é uma pessoa maravilhosa. – sorrio novamente, apertando sua bochecha. Ele revira os olhos, mas depois também abre um sorriso.
- Eu quero a sua ajuda.
- Pra que? – pergunto.
- Para cavar um buraco no jardim. – fala, sério e eu arregalo os olhos.
- Um buraco, pra quê? – pergunto e ele ri escandalosamente, dando um leve tapa em minha testa.
- Não tem buraco nenhum, tonta. Quero a sua ajuda pra conquistar a . Você sabe do que ela gosta e pode me dar uma ideia.
- Lógico! – logo me animo e começo a pensar em maneiras de descobrir o que acha de sem deixar que ela saiba o que ele sente.
- Ah, tem mais uma coisa. – cutuca minha barriga para atrair minha atenção e eu o encaro com as sobrancelhas arqueadas. – Se a senhorita estiver gostando de alguém, vai me contar.
- Vou. – concordo prontamente e ele apenas me olha. – Mas no momento não tem ninguém. – digo e ele assente, dando um beijo em minha bochecha e saindo do quarto.
Atiro-me na cama, empurrando a cadeira para longe com o pé e adormeço rapidamente, com apenas a voz de em minha mente: Nada de beijos técnicos.
Recepção/Secretaria do Elite High School – 09h20min

Tamborilo meus dedos em minha coxa, enquanto balanço a perna. me lança um olhar irritado e eu paro. Estamos a dez minutos sentados na sala do diretor, esperando o nosso momento de falar com ele. Tempo suficiente para combinarmos nossa estratégia, juntando com o que já havia inventado.
Para todos os efeitos, a história é essa: eu e nos conhecemos por intermédio de , dois meses antes do ocorrido na sala e nos apaixonamos logo de cara. Começamos a namorar, mas acabamos discutindo em uma festa e terminamos. Nossos amigos não aguentavam nos ver tristes e separados, e armaram aquilo para que fizéssemos as pazes. Funcionou e estamos juntos até hoje. Fim. Os detalhes a mais que podem ser acrescentados, estão combinados assim: um fala, o outro concorda. Pura e simplesmente isso, para evitar possíveis confusões ou discordâncias.
- e ? – ouço a secretária dizer e levantamos. – Podem entrar.
Vamos em direção à porta e entramos, encontrando o diretor com uma cara não muito agradável. Arriscaria dizer que ele inclusive parece um pouco irônico. Isso vai ser divertido. fecha a porta e coloca a mão na minha cintura, nos conduzindo até a mesa dele e afastando a cadeira para que eu sente. Ele está mesmo levando a sério esse teatrinho. Quando estamos os dois encarando o diretor, ele sorri, cruzando as mãos atrás da cabeça.
- Do jeito como as fofocas andam, vocês devem bem saber o motivo de estarem aqui. – fala e eu não me mexo, também não demonstra reação ao que ele diz. – O motivo é este. – continua, e vira a tela de seu computador para nós, iniciando o vídeo.
Primeiramente, aparecem as faxineiras, limpando os armários e, segundos após a saída delas, eu e adentramos a sala. Fiquei surpresa, não tinha ideia de que o tempo entre a saída delas e o nosso tinha sido tão curto. A câmera não tem um ângulo muito bom e, felizmente, não tem som, mas consegue filmar a mim e ele perfeitamente. Apareço parando e ele batendo em minhas costas, depois a mão na cintura e, finalizando, o abraço. Tento não demonstrar nenhuma reação, mas a verdade é que, olhando assim, não me surpreendo que a desculpa de tenha sido a de que namorávamos; o abraço tinha sido bastante íntimo e eu não tinha tido noção daquilo na hora.
- Então... – continua, pigarreando e virando a tela para ele novamente. – Já ouvi uma versão dessa história, mas queria o ponto de vista de vocês. Quero saber como isso tudo começou e qual a justificativa para terem entrado em uma sala restrita a funcionários da escola.
- Nós estávamos lá porque... – começa, mas é interrompido.
- Separadamente. Quero ouvi-los separadamente. – revela, cruzando os braços na frente do peito e eu novamente contenho a minha surpresa. Agora ferrou de vez.

Capítulo 05.


- Senhorita – Sr. Ottman começou assim que fechou a porta. Eu falaria primeiro e estava apavorada, não era muito boa em inventar coisas. O diretor parecia estar se divertindo e pegou papel e caneta para anotar o que eu diria. A cada segundo isso fica pior. -, gostaria primeiro de lhe avisar que eu não acredito muito nessa história de namoro, portanto quero que você me responda com sinceridade. Se estiver mentindo, eu saberei.
- Sei disso. – respondo, respirando fundo e esperando que minha criatividade esteja boa. Mas então um estalo me atinge: como falarei o mesmo que ? Precisamos falar a mesma coisa, senão ele percebe de cara que é mentira.
- Primeiramente vou lhe deixar a par do que já sei. Eu poderia ser cínico e fingir que eu não sei que você já tem essa história decorada, mas não vou fazer isso; nem vou lhe obrigar a contar novamente o que já escutei. – tossiu, se inclinando para frente, juntando as mãos. Eu permanecia imóvel. – Você e namoravam, e brigaram. Seus amigos armaram para deixar vocês dois trancados em uma sala, com o objetivo de fazer os dois se entenderem. Vocês se entenderam e estão juntos. – terminou, se inclinando para trás novamente e eu assenti brevemente com a cabeça. Retornou para frente, me dando um leve susto, e pegou a caneta, anotando algo no papel. Não consegui identificar o que ele tinha escrito e esperei que se pronunciasse novamente. – Meu único objetivo com vocês dois aqui é comprovar se realmente estão me falando a verdade, portanto farei perguntas sem muita importância, mas quero que você responda. São apenas fatos, mas que vão me ajudar. Acho importante deixar claro para você que eu suspeito que você e estavam metidos em algum plano para colar no trabalho de trigonometria. – falou e eu engoli em seco. Ottman pigarreou. – Podemos começar? – apenas assenti. – Como foi que vocês dois se conheceram?
- Por intermédio de meu primo, . – respondi automaticamente, como o combinado. O diretor pareceu achar graça da minha resposta.
- Isso eu sei, Srta. . Quero que me conte os detalhes.
Gelei. Detalhes, que detalhes? Que tipo de detalhes eu poderia dar? Respirei fundo e decidi contar uma versão um pouco modificada da verdadeira, baseada no dia em que realmente conheci . Tomara que ele pense a mesma coisa, ou pelo menos algo parecido.
- Foi há um tempo, quando passou a andar com os caras e...
- Um momentinho. – ele me interrompeu. – Quem são “os caras”? – perguntou, fazendo aspas no ar e com o olhar irritado. Ele queria que eu fosse mais direta. Vai ficar querendo, paspalhão.
- , e . Como eu estava dizendo – o encarei, cerrando os olhos e ele apenas sustentou o olhar. -, começou a andar com os caras – falei irritantemente e ele revirou os olhos, mas dessa vez não disse nada. – e em um dia qualquer levou ele para jogar videogame lá em casa.
- Levou quem? – me interrompeu novamente e eu bufei.
- . E, caso o senhor pergunte, meu primo mora comigo. Dá pra parar de me interromper? – exclamei, irritada e ele deu de ombros. Tomei isso como um consentimento. – E eles foram jogar videogame lá em casa, os dois. e . – expliquei, fuzilando-o. – E então fomos apresentados um ao outro. e eu. – expliquei novamente e o diretor parecia se divertir com a minha irritação. Velho idiota. – E, assim que nos conhecemos, nos apaixonamos. Foi isso. – modifiquei a última parte, que obviamente não era verdadeira, mas suficientemente simples para que repetisse.
O diretor escreveu novamente no tal caderno.
- Certo. E, diga-me, , como foi o pedido de namoro? – pergunta como se fosse a coisa mais normal do mundo, e eu não preciso fazer mágica para perceber que ele está armando essas perguntas idiotas para nos contradizer. Maldito.
Lembrei-me de um livro de romance que tínhamos lido no início do semestre para um trabalho de literatura infinitamente difícil. Todos precisaram ler o livro duas vezes para se dar minimamente bem no trabalho, eu lembrava perfeitamente da história e esperava que também lembrasse, pois decidi, naquele momento, basear nosso “relacionamento” no relacionamento entre os personagens principais do livro. Eu só precisava arrumar um jeito de avisá-lo sobre isso depois.
- Foi em um restaurante. Estávamos jantando, até que, de repente, apareceram três violinistas e começaram a tocar a minha música favorita; ele então se ajoelhou e fez o pedido. – falo e imediatamente percebo que fui seca demais, direta demais. Obrigo-me a dar um suspiro que julgo apaixonado e a contragosto, acrescento sorrindo: - Foi lindo.
Ele escreve, provavelmente o que acabei de dizer, e assente.
- Sei que acha que estamos perdendo tempo aqui, e eu concordo, considerando que meu único objetivo é saber que a história é verídica. Portanto farei agora a última pergunta. – assenti, me segurando para não pular de alegria. – Qual foi o primeiro presente que ele lhe deu?
Imediatamente me lembro do tal livro.
- Um colar. – respondo simplesmente e, antes que ele pergunte o que tinha no pingente, me levanto – Posso ir? – ele assente e eu saio. Vejo que a secretária está ocupada em seu computador e olho para , mexendo meus lábios para dizer: “amarre os sapatos”. Ele imediatamente se inclina na direção dos pés e finge fazer um nó. Sorrio e sigo na direção da secretária, me debruçando sobre sua mesa e chamando a sua atenção.
- Bom dia. Terry, você sabe me dizer o nome daquele livro que lemos semestre passado? – dou ênfase nos pontos importantes e falo alto suficiente para que escute. – Eu queria tanto lê-lo de novo! O pedido de namoro presente nele é tão romântico! O colar que o principal deu para garota foi um gesto tão fofo! – exclamo tontamente, e o diretor aparece, chamando . Ele entra e eu rezo para que tenha entendido o recado. Espero enquanto a sorridente Terry procura para mim o nome do tal livro, apesar de eu saber qual é, e quando ela me diz, apenas concordo com a cabeça, agradecendo e sigo para a cadeira, sentando-me.
Quando saiu da sala, me levantei imediatamente e o encarei com as sobrancelhas arqueadas numa muda pergunta. “E aí?”. Ele apenas me olhou cerrando os olhos e indicou o corredor com um aceno de cabeça. Seguimos até o corredor e quando nos encontrávamos relativamente longe, paramos em um canto próximo à parede.
- E então? Qual o veredicto? – perguntei, já impaciente, e franziu a testa.
- Vere-quê?
- Esquece. – bufei, revirando os olhos. – O diretor acreditou ou não?
- Acho que sim. – deu de ombros. – Ele não falou exatamente, só ficou mexendo a cabeça enquanto eu falava e depois me mandou sair. Desejou felicidades no namoro. – riu, imitando a voz do diretor teatralmente. Não consegui conter um sorriso.
- Ótimo. E o que ele perguntou?
- Como nos conhecemos, como foi o pedido de namoro e qual o segundo presente que eu te dei. Falei tudo como você disse, sobre o tal livro. Ainda bem que eu me lembrava.
- Ainda bem mesmo. – suspirei, aliviada, mas então um estalo me atingiu. Falou tudo. Segundo presente. Ah, merda. – Sobre como nos conhecemos, o que você disse?
- Disse o que tinha no livro, que se esbarraram na rua e começaram a conversar.
Ah, merda, merda, merda.
- E sobre o segundo presente? – perguntei, apesar de saber a resposta.
- Um colar. Não era isso?
Que beleza. Ferrou tudo.
- Puta merd... – comecei, mas quando desviei o olhar para o lado vi que o diretor vinha em nossa direção, apesar de não ter nos visto ainda. Sem pensar duas vezes, puxei a cabeça de para mim e juntei nossos lábios. Ele pareceu surpreso, mas não demorou a corresponder. Colocou um dos braços atrás das minhas costas e com o outro me segurava pela cintura. Eu não quis levar em conta a tal condição “sem beijos técnicos”, portanto mantive meus lábios bem fechados enquanto levava minhas mãos até o seu cabelo, mantendo-a por lá. Ouvi um pigarro ao nosso lado, e separei o beijo, fazendo cara de surpresa.
- Diretor? Algum problema? – minha voz soou suave, até mesmo angelical e eu pus no rosto um sorriso cínico.
- Não era para vocês terem voltado para a sala de aula?
- Era...? – disse, em tom de interrogação e encarei , que deu de ombros, também se fazendo de inocente. - Vão. Agora. – nem esperei que ele terminasse de falar, logo puxei o garoto ao meu lado pelo corredor, com a sensação de dever cumprido. Duvido o diretor não ter ficado pelo menos em dúvida agora.

Casa dos – 13h46min
- ? – ouvi a voz de e senti que alguém chacoalhava meu ombro. Resmunguei baixo, virando meu rosto para o outro lado, mas a perturbação continuou. Por fim me dei por vencida e me virei, encarando . O sorriso em seu rosto era tão grande que chegou a me assustar. – Quero te contar uma coisa. – quando eu ia abrir a boca para perguntar o que era, ele já falou. – Vamos fazer um show em Los Angeles! – disse, e eu dei um gritinho entusiasmado, pulando em seu colo e o abraçando. Eu já sabia sobre o show, mas não tinha parabenizado meu primo ainda. – Ah, tem mais uma coisa. Você vai com a gente. – ele diz, e nessa hora não finjo mais surpresa, já estou pasma o suficiente. Por essa eu não esperava. - Eu? – pergunto, sentindo um sorriso se formando no canto do meu rosto.
- Sim. – sorriu, depositando um beijo em minha bochecha. – Ah, o vai chegar daqui a pouco.
- E eu com isso? – perguntei, franzindo a testa. nunca me avisava, simplesmente aparecia.
- Ele vem para que vocês estudem biologia.
- COMO? – grito, dando um pulo.
- A primeira prova é semana que vem, . Se o for mal, nada de viagem. – ah, claro. Biologia. Já tinha me esquecido completamente. Então a primeira “aula” será hoje.
Quinze minutos tinham se passado quando a campainha tocou. Eu já estava organizada na mesa da sala, com os livros e os cadernos arrumados. Não precisava estudar a matéria, já sabia ela de cor. Fui abrir a porta e conduzi até a mesa, para que enfim começássemos.
- Podemos? - Foi pra isso que eu vim, não foi? – falou, bufando e eu revirei os olhos.
- Credo, grosso. Se não quer estudar vá embora então!
- Querer eu não quero. – ele deu um riso irônico. – Mas eu preciso.
Eu já estava quase perdendo a paciência e estava prestes a me levantar, acabando com aquele acordo estúpido, quando a voz de me interrompeu. - Nós precisamos. E se eu fosse vocês começaria logo com isso. – deu de ombros, indo em direção a cozinha e eu peguei um livro qualquer, suspirando e rezando para que ele não fizesse mais nenhum comentário.
- Vamos começar por citologia?
- Cito-quê? – perguntou, enquanto abria o caderno.
É. Isso vai ser mais difícil do que eu imaginava.

CONTINUAÇÃO

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